• Pablo Bráulio

Revisionismo: que papo é esse?

Atualizado: Mai 17

As revisões são inerentes ao trabalho científico. Quanto mais nas chamadas ciências humanas! Teses consagradas podem ser revistas quando confrontadas com novas evidências, por exemplo. Afinal, o conhecimento é dinâmico e está em constante transformação. Não há problema nenhum nisso. Teses diferentes daquelas mais aceitas, motivadas por vários fatores, podem colocar em questão verdades estabelecidas.


Este artigo integra uma série de textos sobre o ensino da história da ditadura vigente no Brasil entre 1964 e 1985. Contudo, antes de abordar diretamente o tema, seguem alguns exemplos de revisões para evidenciar sua importância na dinâmica de produção do conhecimento.


Exemplo 1: a idade do homo sapiens


A partir de fósseis humanos encontrados no Marrocos, um grupo de pesquisadores concluiu que a espécie humana surgiu há mais tempo do que imaginávamos. Segundo eles, esses fósseis são de pessoas que viveram cerca de 300 mil anos atrás. Os resultados da pesquisa foram publicados na revista Nature, em junho de 2017. Até então, o mais antigo conjunto de fósseis de homo sapiens, localizado na Etiópia, tinha idade máxima de 195 mil anos. Portanto, temos aqui um caso de revisão científica motivada por novas evidências.

Exemplo 2: a proibição do escravismo no Brasil


Entrando mais propriamente no campo dos estudos históricos, sabemos que o nosso olhar sobre o passado também sofre transformações ao longo do tempo. Novas fontes e novas abordagens – além do reconhecimento de atores sociais anteriormente silenciados pela documentação e pela historiografia tradicional – podem inspirar revisões que nos permitem ter uma compreensão mais ampla sobre um determinado processo histórico.


Inicialmente, constituiu-se a ideia (sustentada pela Lei Áurea e pela narrativa imperial e liberal) de que a abolição da escravidão foi uma benevolência da princesa Isabel e um ato unilateral de parte das elites brancas liberais do país. Assim, consagrou-se o 13 de maio (data da assinatura da lei em 1888) como marco mais importante para os descendentes das pessoas que foram escravizadas durante mais de três séculos.


Mais recentemente, sobretudo com a atuação do movimento negro, têm-se procurado recuperar o papel dos próprios escravizados no processo de desagregação do sistema escravista: formas de resistência mais ou menos organizadas (fugas, crimes, alforrias, quilombos, mocambos etc.), aliadas ao movimento abolicionista e a pressões internacionais, foram fundamentais para que o escravismo se tornasse cada vez mais insustentável no Brasil, não deixando às elites políticas outra saída que não fosse proibir a escravidão. Novas fontes históricas revelaram o protagonismo dos negros nesse processo. O 13 de maio perdeu importância diante do 20 de novembro (consagrado a memória de Zumbi dos Palmares, morto nessa data em 1695) ou do 25 de março (data da abolição no Ceará, onde o jangadeiro Francisco José do Nascimento – o Dragão do Mar – convenceu seus colegas a não transportar escravizados vendidos para as províncias do Sul, iniciando um processo que culminou com o ato do presidente da província, em 1884, de libertar os escravizados no Ceará).

A própria utilização do termo “escravizado” em substituição ao termo “escravo” veio a partir de um movimento de revisão histórico-linguística, que identificou no termo “escravo” um sentido que naturaliza a condição cativa da pessoa escravizada, quando na verdade essa condição é resultado de relações históricas de dominação.


Exemplo 3: a ditadura civil-militar


Quando se trata do regime político vigente no Brasil entre 1964 e 1985, existe um debate muito interessante em andamento que possibilita olhar para a experiência ditatorial brasileira de outro modo. A tradição historiográfica consagrou o conceito de Ditadura Militar para se referir a esse período. Esse conceito, contudo, acabou por evidenciar o protagonismo das Forças Armadas mas eximiu outros atores, fundamentais para a instituição e o endurecimento do regime. Muitos historiadores vêm aprofundando o debate sobre as conexões civis da ditadura. Isso quer dizer que há uma tendência de lançar luz sobre a participação de empresários, políticos nacionais, agentes estrangeiros e diversos setores da sociedade (religiosos, imprensa etc.) no golpe de 64 e na sustentação do regime político que decorreu daí. Essa tendência tem sido reforçada por novos documentos e tem estimulado os historiadores a se referir ao regime de 64 como “ditadura civil-militar”, conceito que será adotado na série de artigos da qual este texto é parte integrante.

Cartum de Junião

Revisionismo e ensino de História


O conceito de "revisionismo" pode ganhar muitos significados; pode receber uma conotação positiva ou pejorativa dependendo do contexto; pode ser reivindicado ou rejeitado por algum estudioso que se propõe a revisar alguma tese envolvendo seu objeto de estudo; pode ser mobilizado no debate público para objetivos que extrapolam a produção acadêmica e científica; enfim, o "revisionismo" não só suscita discussões como seu conceito em si é objeto de muitos debates no campo historiográfico.


Evidentemente, as revisões têm impacto no trabalho do professor ou da professora de História. Requerem dele ou dela muito estudo e atualização permanente. Ainda que o ensino de História não deva ser compreendido como mera transposição didática do conhecimento produzido nas universidades, é recomendável que o (a) professor (a) de História entenda seu campo de atuação como algo em permanente transformação. Até mesmo para saber separar o joio do trigo quando se deparar com os questionamentos de seus próprios alunos e alunas. A partir de referências múltiplas (livros best sellers de ficção ou não; séries e programas de TV; documentários; falas de youtubers e podcasters etc.), a garotada sempre traz para a sala de aula aprendizagens adquiridas fora da escola. E separar o joio do trigo significa identificar o que são revisões inerentes à dinâmica da produção científica e do debate acadêmico, diferenciando-as de falseamentos, deturpações, senso comum, preconceitos, revisionismos desonestos e negacionismos.

Posse de Castelo Branco, 1964 (Foto: Agência O Globo/IEA-USP)

Pensando nisso, preparamos esta série de artigos sobre o ensino de história da ditadura civil-militar no Brasil, tema que tem motivado intensos debates de narrativas. Este texto é o segundo artigo da série, ao longo da qual procuramos conectar o ensino de História com a produção historiográfica e com o debate público em torno desse tema. O objetivo é propor uma reflexão sobre o que tem alimentado os debates sobre esse período da nossa história política e sobre quem tem se alimentado dessa discussão, além de disponibilizar referências e encaminhamentos para que professores e professoras de História possam desenvolver o seu trabalho em sala de aula.


Estes são os sete artigos que compõem a série sobre ensino de história da ditadura no Brasil:


1ª parte – 1º de abril: ensinar a ditadura entre verdades e mentiras (anterior)

2ª parte – Revisionismo: que papo é esse? (atual)

3ª parte – Experiências autoritárias e repressivas recentes: memórias e debates (próximo)

4ª parte – Golpe & revolução & contrarrevolução & contragolpe

5ª parte – Aniversários do golpe e a repercussão do negacionismo

6ª parte – História da ditadura na sala de aula: o que fazer?

7ª parte – O que ler, ver e ouvir sobre a ditadura civil-militar no Brasil

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