• Pablo Bráulio

Relato de uma aula sobre cidadania

Às vezes uma aula acontece dentro de outra. É fundamental estarmos atentos a essas camadas. O artigo da semana passada me fez recordar muitas aulas em que o tema da violência e das relações de gênero emergiram. Então, lembrei de uma conversa que ocorreu no ano passado e decidi compartilhar este relato.

Era uma aula sobre democracia ateniense e cidadania com meninas e meninos do 6º ano. Chegamos a conversar sobre o papel das mulheres na vida pública antes que a turma se organizasse em equipes para realizar uma tarefa. A equipe do Marcos (nome fictício) foi a primeira a terminar. Vieram me mostrar o que haviam produzido para que eu pudesse fazer uma revisão.


Tudo conferido, voltaram aos seus lugares, permanecendo em grupo para aguardar as outras equipes concluírem a tarefa. Mas Marcos continuou ao meu lado. Enquanto desenhava com o dedo formas aleatórias na lousa suja de pó de giz, lançou-me uma questão: "professor, se você pudesse voltar no tempo, em que época escolheria viver?"


Pego desprevenido e sem nada melhor para oferecer ao garoto ali naquele instante, só me ocorreu esta resposta: "acho que eu escolheria a mesma época em que estamos". Para não matar o assunto ali, frustrando o menino com uma resposta tão sem graça, devolvi a pergunta: "e você, Marcos, qual época escolheria?"


Ao contrário de mim, ele tinha uma réplica prontinha na boca, como se estivesse à espreita para soltá-la, independente de qual tivesse sido minha resposta: "Eu escolheria viver na época em que as mulheres não tinham direitos". Dita assim, a escolha dele me deixou um tanto perplexo.


Emendei um "por quê?" meio receoso do que poderia sair dali. E o menino explicou: "Eu ia avisar pras pessoas daquela época que elas estavam agindo errado e mostrar que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens". Entendi as heroicas intenções do Marcos, mas só consegui devolver um ceticismo que tinha tudo para estragar a fantasia do menino: "o problema, Marcos, é que as pessoas 'daquela época' não iam conseguir entender a sua mensagem".


O menino fez silêncio, pensativo. Talvez o diálogo que se desenrolara até ali já tivesse o entediado. O fato é que não passava de uma mera introdução, um pretexto para o que de fato ele queria me contar. E tomou novamente a palavra: “Sabe, professor, minha mãe tinha um namorado que não deixava ela fazer nada. Só ele podia sair, encontrar os amigos dele. Ela não. Mas um dia ela mandou ele ir embora".


O garoto contou toda a história de relacionamento abusivo que ele testemunhou e eu o ouvi atentamente. Era como se Marcos tivesse vivenciado uma espécie de sobreposição temporal. O que ele me contava era uma experiência de viagem no tempo que ele havia experimentado de fato: a convivência com um adulto antiquadão, que submetia sua mãe à lógica de um outro tempo que não o dela. O sujeito que havia convivido com Marcos parecia não ter vivido nadinha do longo (e inacabado) processo de libertação feminina.


Talvez Marcos não tenha conseguido explicar àquele brucutu pré-histórico que sua mãe podia fazer o que ela bem quisesse. Talvez Marcos nunca tenha tentado fazer isso e sua fantasia de viagem no tempo podia ser uma forma de compensar essa omissão. Sei lá!... Diante do relato de Marcos, só consegui expressar algumas palavras no sentido de reforçar a importância de ele ter apoiado a mãe na decisão de mandar o brucutu embora.


Mas Marcos não parou por ali. O menino estava mesmo disposto a narrar sua trajetória e logo quis emendar outro relato. Tive que interrompê-lo no momento em que os membros de outra equipe me trouxeram a tarefa para conferência. Pedi licença ao meu interlocutor, que se juntou ao seu grupo novamente, mas só por alguns instantes. Assim que Marcos percebeu que eu já havia dispensado os colegas da outra equipe, levantou-se de novo e veio até mim para retomar a conversa.


Pedi para que ele pegasse uma cadeira e se sentasse ao meu lado. O rumo da nossa prosa, por algum motivo, o fez lembrar da época em que morava num "acampamento". Tratava-se de uma ocupação em um terreno urbano, cujos moradores haviam recebido ordem de despejo. Felizmente, a mãe de Marcos e outras famílias da ocupação foram contempladas em um sorteio para receber as chaves de moradias populares construídas em um condomínio perto do acampamento.


Marcos foi me contando tudo isso ao seu modo e nossa conversa teve que ser interrompida outras vezes por causa das equipes que traziam as tarefas para eu avaliar. Todas as vezes, o menino foi compreensivo na mesma proporção em que permanecia ávido para narrar suas experiências. Todas as vezes que via a brecha, tornava a se sentar ao meu lado para continuar seus relatos.


Eu me desdobrava entre dar-lhe atenção e cumprir minhas obrigações com a turma. Marcos e eu nos esforçávamos, com firme cumplicidade, para romper o ordenamento da sala de aula (em que eu deveria simplesmente corrigir os trabalhos dos alunos e ele, aguardar sentado em seu lugar).


Sempre ao seu modo, Marcos me explicou como foram suas experiências no acampamento e a transferência para a nova casa. Falou de pessoas que desapareciam e vizinhos que nunca mais foram vistos. Falou das ameaças que sua família recebia para deixar a ocupação. Falou do medo e da desolação. Falou sobre os tratores que foram derrubar os barracos no acampamento. Falou da alegria da mãe ao receber um lar e dos colegas da sala que eram seus vizinhos no condomínio.


Marcos sentiu, naquela aula sobre cidadania na Antiguidade, necessidade de desabafar, pôr pra fora todas aquelas vivências. Eu tentei oferecer-lhe um ouvido atento e dirigir-lhe perguntas que pudessem auxiliá-lo na elaboração de suas memórias. Tentei fazer com que ele se esforçasse para lembrar o ano de determinado fato ou qual idade ele tinha em cada episódio narrado.


Quase tudo o que Marcos narrou ocorrera nos dois primeiros terços de sua vida. O garoto tinha seus 11 anos quando esse papo aconteceu. Dentro da minha aula sobre cidadania na Antiguidade Clássica, havia outra aula acontecendo. Nesta, apenas Marcos e eu nos desdobrávamos para compor juntos uma trama de aprendizagens sobre os subterrâneos de uma outra cidadania, contemporânea, que os compêndios escolares não conseguem sintetizar e os currículos ignoram.

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