Quinina: o que a história tem a nos dizer?

Mais de 450 anos de controvérsias e desenvolvimento são hoje ressignificados pelos discursos e twitters presidenciais



Cortiça de quina vendida pelo Doutor Raiz, em Rio Branco (AC).

Em tempos de isolamento social, a internet é nosso refúgio na maioria do tempo. É navegando nas redes sociais que temos acesso a rede de informações que nos deixa - em partes - mais cientes sobre a pandemia do Covid-19. E não é estranho que nos deparemos com algumas publicações que tratam de assuntos que estão na ordem do dia, como a do escritor Aguinaldo Silva.



Esta é a lindíssima flor da quina, da qual se faz a nossa conhecida água tônica, imbatível com limão siciliano e gim. É dela que se extrai o quinino, usado para combater a malária desde os tempos do colonialismo. Eram umas pílulas enormes naquela época. Em algum daqueles filmes sobre a África colonial você certamente viu um branquelo com febre, suando muito, delirando... E alguém dizia: "ele precisa tomar quinino!"

E completou:

Hoje, em forma aprimorada, o quinino daquela época se chama cloroquina e é usado não só na profilaxia da malária, como também de outras doenças.

Um simples twitter que me gerou uma série de questionamentos.

Penso que historiador, no geral, têm um faro para pesquisa, e, na maioria das vezes são as próprias redes sociais que nos estimulam a pensar e refletir sobre determinados assuntos - pois, nada mais justo para um pesquisador da área da história que a ação de refletir e relacionar o passado e o presente.  

Mas, como não somos médicos, advogados ou presidente, que são, no geral, ocupações

que não precisa pedir licença antes de falar - em rodas de conversa ou em pensamentos vãos no twitter -, temos sempre que nos legitimar antes de falar algo. Um exercício repetitivo, mas que aos poucos vamos desapegando. Mas, por hora, vamos lá!


Há alguns anos realizo pesquisas sobre as relações entre seres humanos e plantas, especialmente no Brasil Colonial. Tento entender como nós estabelecemos relações, redes e conexões a partir de uma ação que, para muitos, parece algo distante: derrubar uma árvore, colocar numa embarcação e criar usos para algo que até então eram desconhecidos para outra parte do mundo.


Realizo meus estudos a partir do Paubrasilia echinata Lam. — Gagnon, H.C.Lima & G.P.Lewis - ou, mais usualmente, pau-brasil. Porém, pensar relações como essa a partir de outras árvores não é algo tão distante para nós. A árvore da Quina (sim! há relações com a tão falada cloroquina!), por exemplo, devido o seu potencial como medicamento, durante os séculos XVII e XIX foi alvo de intensas disputas entre as principais potências coloniais, principalmente Espanha, Portugal, Inglaterra, França e Holanda.



Nos caminhos das florestas, as árvores contam histórias!


Nós, do continente Americano, já temos uma longa relação com as árvores e isso remonta a séculos e mais séculos de história. Hoje, simplesmente, não há aquela pessoa que não desfrute de uma tarde tranquila debaixo de uma refrescante sombra arbórea, ou então que não se renda ao desejo de retirar um fruto maduro direto da árvore. E, mais, se hoje somos brasileiros é também devido à uma árvore: o pau-brasil.


Porém, muitas delas beiraram a extinção - e ainda correm o risco de desaparecerem de nossas matas. Uma delas é a árvore da Quina, que é uma planta que remonta sua história há alguns milhares de anos. E, por mais distante de nós que pareça, é indispensável ficar com a assertiva de que:

antes de tudo é preciso ver a flora, para enxergar o Brasil. (Marcos Sá Corrêa).

Acrescento mais: conhecer o Brasil sem conhecer sua originalidade botânica é tempo perdido. Logo, escrever sobre as particularidades botânicas e históricas da Quina acaba sendo uma história do tempo perdido, mas que não poderemos voltar a perder. Conhecemos pouco sobre nossas florestas. Muito está desaparecendo sem ao menos termos contato pela primeira vez, pois, assim como o tempo atravessa os seres humanos, ele também atravessa as seivas das árvores.


Muitas das plantas que ainda não desvendamos e já desapareceram - foram extintas - poderiam ter a cura para diversas doenças que ainda nem sequer imaginamos um dia nos acometer.


Dizer isso não se trata de fazer uma pura exaltação ou clamor ambientalista, mas, sobretudo, é exercício de apontar que as árvores crescem ao decorrer do tempo emaranhada entre belezas e contradições. É dizer também, de forma mais clara ainda: os agentes químicos que, hoje, nos provoca boa saúde são, antes de qualquer intervenção, propriedades da natureza.


Breve histórico da quina-quina


1638: A história registra que, neste ano, a condessa de Chinchón, esposa do vice-rei espanhol no Peru, foi acometida de forte febre terçã. Ao ingerir uma poção feita pelos índios chamada “quina-quina” a febre cedeu e a continuidade do tratamento a deixou curada. Este evento pode ser estabelecido como o início de uma história de desenvolvimentos, experimentações e enganos, envolvendo alguns dos maiores nomes da ciência dos últimos 470 anos.


A partir deste relato, padres jesuítas da missão espanhola levaram o pó para a Europa para vendê-lo como um medicamento, que depois ficou conhecido como “pó dos jesuítas”.


Em 1679: o Rei Charles II, da Inglaterra, foi vitimado por uma forte febre. Porém sendo protestante, preferia morrer a tomar um medicamento católico, por melhor que ele fosse. Neste contexto, surge Robert Talbor com um medicamento “protestante”, que o rei não hesitou em tomar. Ficou curado e, como agradecimento, sagrou Talbor à cavaleiro e médico real. Alguns anos depois foi revelado que o remédio protestante de Talbor era, na verdade, o “pó dos jesuítas” - apenas em uma formulação diferente.


Hoje, sabemos que o mal que afligiu a condessa e o rei era a malária. Este nome tem origem na expressão italiana “mala aria” (ar ruim), pois se acreditava que a doença era transmitida pelo ar contaminado proveniente de pântanos e esgotos.


A árvore de Cinchona tem cerca de 20 m de altura, pertence à família das Rubiáceas, que possui entre outros membros, o café e as gardênias. Os europeus, em homenagem à condessa Chinchón, classificaram o gênero como Cinchona do qual as espécies mais importantes são: Cinchona ledgeriana, C. officinalis, C. calisaya e C. pubescens .


Até 1820: apenas um pó feito com as raízes da árvore era comercializado. Nesse ano, Pelletier e Caventou isolaram deste pó um alcaloide com extrema atividade contra a malária, ao qual deram o nome de quinina. Após a descoberta, inúmeros métodos foram desenvolvidos para extrair o alcaloide e vendê-lo como medicamento. A extração e exportação para a Europa era um processo tão lucrativo que o governo peruano proibiu a exportação de semente de Kina (nome indígena da árvore) para manter o controle sobre este mercado.


A extração da quinina a partir da casca de Cinchona não rende tanto quanto a extração a partir da árvore inteira. Assim, a obtenção comercial da quinina quase levou à extinção as árvores amazônicas, as quais, ironicamente foram replantadas a partir de sementes obtidas das mesmas plantações formadas pelo contrabando. A necessidade de obter a quinina de maneira mais fácil e mais barata deu um grande impulso para o desenvolvimento da ciência e da indústria química, tal como a conhecemos. Após o isolamento por Pelletier e Caventou em 1820, Louis Pasteur em 1852 observou que a molécula era levorrotatória, porém, nesta época, ainda não se tinha nem o conhecimento da fórmula molecular e nem da estrutura espacial da quinina. Em 1854, Strecker determinou que a fórmula molecular da quinina era C20H24N2O2.


Em 1944: sua síntese foi feita (ainda que parcialmente) sem equipamentos de FT-RMN, coluna flash, CLAE ou T.L.C. Talvez a melhor maneira de encerrar essa história seja com o comentário de um dos principais químicos do século XX, Gilbert Stork, que faleceu em 2017:

O valor da síntese da quinina essencialmente não tem nada a ver com a quinina em si. É parecido com a resolução de um teorema matemático muito antigo, cuja solução foi procurada durante muito tempo. Amplia o conhecimento.

E nessa ampliação de conhecimentos, nós, historiadores, continuamos certos que muita história há de se desenrolar...


Texto adaptado do artigo de OLIVEIRA e SZCZERBOWSKI. Para conferir mais sobre o percurso histórico do desenvolvimento químico da Quinina, acesse o estudo: "Quinina: 470 anos de história, controvérsias e desenvolvimento", produção de Alfredo Ricardo Marques de Oliveira e Daiane Szczerbowski, pelo Departamento de Química, Universidade Federal do Paraná.

Segundo informações que tive de um vizinho meu, nas Universidades Públicas acontece esse tipo de balburdia.


O passado legitima o uso da cloroquina ou do hidroxicloroquina?



Muitos que defendem o uso da cloroquina ou do hidroxicloroquina, atualmente, se utilizam de um pouco de história para legitimar suas prescrições "médicas", são apoiadores de uma cartilha que ainda não se mostra cientificamente clara, mas, quando o assunto se trata de defender seus termos, até a história é reavivada e valorizada em certos pontos.


Por exemplo, uma imagem que anda circulando pela internet é uma cartilha da "Inspectoria de Hygiene", datada do inicio do século XX, quando a Gripe Espanhola aterrorizava habitantes de algumas cidades brasileiras. Ao lado lemos o alerta:

TOMAR, como preventivo, internamente, qualquer sal de quinino nas doses de 25 a 50 centigrammos por dia, e de preferencia no momento das refeições

Porém, devemos destacar que nossas relações com os medicamentos e com a própria medicina é alterada ao longo do tempo.


Por exemplo, o fundador da homeopatia, o médico alemão Samuel Hahnemann (1755-1843), estando saudável, ingeriu um pouco de casca da quina para investigar sua reação. Ele relatou, posteriormente, febre, tremores e dores nas articulações - sintomas parecidos aos da malária. A partir daí, Hahnemann passou a acreditar que todos os medicamentos eficazes produzem, em indivíduos saudáveis, sintomas semelhantes aos das doenças que tratam, de acordo com a "lei de semelhança", o lema principal dos homeopatas.


Outro médico da época, o neurologista suíço Auguste Tissot (1728-1797), publicou o livro "L'Onanisme", que apresenta a quina como uma substância que remediava os problemas médicos causados pela masturbação.


São exemplos que nos mostram como construímos e desconstruímos nossos próprios modos. E essas novas relações com o ambiente médico e humano aprimoram ou inibem suas virtudes, aumentam ou diminuem sua importância, fazem com que sejam usadas de maneira habitual ou inesperada, desprezadas ou admiradas - readaptando o pesamento da historiadora Lorelai Kury.


Seguindo esse raciocínio, as falas científicas de hoje não são as mesmas de 100 anos atrás! O vírus é outro, e que se manifesta de outras formas. Tendo isso em vista, o melhor "sal de quinino" que podemos tomar é o do tônico com gim e limão - e, se possível, assistindo uma live musical.


Quina: razões, limites e responsabilidade


Em contexto mais recente, com outros cenários que não o passado, os derivados da Quina se tornam ponto de divergência entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Não há como negar que o uso da cloroquina está longe de ser consenso entre médicos e pesquisadores. Enquanto Bolsonaro tornou a substância uma bandeira contra a crise do coronavírus no Brasil, Mandetta pede cautela e busca na Ciência embasamento para seus argumentos.


De fato, a falta de evidências científicas e sua alta toxicidade depõem contra o fármaco. Por outro lado, alguns estudos bastante limitados indicaram um possível efeito inibidor da replicação do vírus com a droga. Mesmo sem comprovação, alguns poucos países já adotaram a cloroquina ou sua derivada, a hidroxicloroquina, como tratamento para a covid-19.  


Ainda que longe de um veredicto confiável sobre o tema, diversas pesquisas mundo afora avaliam a cloroquina e a hidroxicloroquina em pacientes com coronavírus.


Para Alessandro Conrado de Oliveira Silveira, farmacêutico, bioquímico e pós-doutor em Microbiologia, também deve-se ponderar as diferenças entre as populações pesquisadas. Isso quer dizer que deve-se avaliar até que ponto um bom resultado em outro país poderia, realmente, ser efetivo no Brasil.


— Uma coisa é pegar ensaio da China ou da Itália. Outra, é do Brasil. A população é diferente, o vírus pode ser diferente. São muitas variáveis envolvidas nesse processo. Mas duas coisas precisam ficar claras. A primeira é que cloroquina não é preventiva, ou seja, não é vacina. E a segunda é que o uso precisa ocorrer sob supervisão médica. Ninguém melhor que ele para avaliar se o paciente tem ou não necessidade de usar — diz.

Também em entrevista ao Gaúcha Atualidade, Luciano Goldani, infectologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, reforçou que os estudos publicados até o momento apresentaram apenas indícios da eficácia da droga:


— Alguns estudos mostraram que as substâncias tiveram ação na replicação do vírus em laboratório. Mas são levantamentos muito pequenos, muito pobres e não foram tecnicamente bem feitos. Mas com isso, a cloroquina virou a droga milagrosa, que vai salvar as pessoas. Não é bem assim. Ela precisa passar pelo padrão ouro: com estudos randomizados em ambiente controlado para verificar a eficácia —defendeu.

Enfim, a cloroquina é apenas um entre tantos medicamentos que estão sendo usados de forma experimental pela urgência de combater o coronavírus. Todos esses remédios foram deslocados de sua função inicial para as doenças em que são indicados na estratégia de "reposicionamento de fármacos", um processo mais rápido do que criar, testar e aprovar uma nova droga para o novo vírus.


Rodrigo Bertolloto, em artigo para o portal Oul de notícias, afirma que:


O Japão está testando e oferecendo gratuitamente o antiviral Avigan para o tratamento do coronavírus. A Tailândia está usando medicamentos contra o HIV nos pacientes da pandemia. Há pelo menos sete drogas diferentes sendo usadas pelo mundo de forma experimental para tentar achar um paliativo ao crescimento da pandemia. A cloroquina ganhou fama por aqui mais por ação de políticos querendo salvar seus mandatos e suas popularidades do que por sua real eficiência, afinal, não há suficientes testes clínicos, e os resultados até agora não são tão otimistas quanto os discursos presidenciais.

Para nós, que somos historiadores, falar sobre o futuro é uma tentativa vã. Por hora, fiquemos com as indicações da Sociedade Brasileira de Infectologia, que:

Mantém o posicionamento divulgado em 22 março, no qual ressalta que os estudos com hidroxicloroquina, até o momento, são muito fracos. Também reforça que não há nenhum medicamento comprovadamente seguro contra a covid-19 e considera "o uso da hidroxicloroquina para tratamento da covid-19 como uma "terapia de salvamento experimental". Seu uso deve ser individualizado e avaliado pelo médico prescritor, preferencialmente com a participação de um infectologista, avaliando seus possíveis efeitos colaterais e eventuais benefícios".

Se a cloroquina ou a hidroxicloroquina irá mesmo ser efetiva no tratamento da Covid-19, a história irá nos responder. Agora, nada mais justo que se posicionar ao lado da ciência e não fazer usos indevidos de resultados empiristas.


Referências


OLIVEIRA, Alfredo Ricardo Marques de. SZCZERBOWSKI, Daiane. QUININA: 470 ANOS DE HISTÓRIA, CONTROVÉRSIAS E DESENVOLVIMENTO. Quim. Nova, Vol. 32, No. 7, 1971-1974, 2009.

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