• Amanda Martins

Quando uma estátua cai, aprendemos um pouco mais


A estátua de Leopold II foi carbonizada na Antuérpia. Imagem: Jonas Roosens/Agence France-Presse.

Os protestos do Black Lives Matter que estão ocorrendo por todo o mundo não se referem apenas a solidariedade com George Floyd ou à negação do racismo. Os ataques às estátuas de Edward Colston, Leopold II e Hernán Cortés indicam a necessidade de abordar o passado colonial e o impacto desse legado.


Muito se tem dito que “destruir o patrimônio histórico” é apagar a história ao invés de aprender com ela. No entanto, é razoável perguntar se as estátuas são um meio eficaz para educar e gerar reflexão sobre o passado.


Recentemente assisti a uma defesa de tese em uma universidade belga. A apresentação foi feita diante da pomposa pintura do rei Leopold II e quase ninguém percebeu. Isso demonstra que as ações do império belga no Congo estão quase ausentes da memória das pessoas.


Ao que tudo indica, trombar em monumentos por aí não suscitou sequer a curiosidade para “dar um google”. Agora que a estátua foi carbonizada, os jornais trazem a pauta: quem foi este rei? Que política econômica promoveu e que impactos gerou? O monumento, por si, nada ensina. A interação com ele é que gerou reflexão.


Caroline Bauer, pesquisadora e professora de história da UFRGS, tweetou sobre o assunto.

Os silêncios da história

“Há uma série de silêncios sobre o passado” – diz Charlotte Riley em matéria para o The Guardian. “A relação dos países europeus com o passado colonial se baseia mais no esquecimento ou no apagamento que na lembrança”.


Ela ressalta que há muito mais monumentos de homens que escravizaram ou mataram centenas de civis desarmados do que conversas críticas sobre os crimes perpetrados pelo império.


Na opinião de Charlotte Riley, não é a vergonha que impede os britânicos de ter essas conversas. “Para que se envergonhem do passado precisariam saber sobre ele, conhecer os piores excessos da violência e a simples injustiça diária do domínio imperial. Mas muitos não sabem disso e, na maioria das vezes, não querem saber”.


História, ficção, reflexão

A desinformação sobre o lado sombrio destes impérios não é uma exceção britânica. O ator espanhol Óscar Jaenada se surpreendeu ao estudar o passado colonial de seu país. Ele interpreta Hernán Cortés na série Hernán, lançada em 2019 pela Dopamina e disponível na Amazon Prime.

“O que mais me impressionou quando comecei a investigar [a história] é que o que é dito aqui na Espanha não tem nada a ver com a versão que corre no México” – disse à revista Catamarca.

Óscar Jaenada e Ishbel Bautista interpretam Cortés e Malintzi na série "Hernán".

Cortés é visto no México como um sanguinário enviado para matar índios” – diz o ator. “Eu tenho uma educação catalã e conhecia muito pouco sobre Hernán Cortés. Quando vim a Madrid também me dei conta de que não se conhecia muito sua figura. Sabe-se apenas que foi a América e conquistou o México, e que ali havia índios selvagens que faziam torturas, sacrifícios e viviam em cabanas”.


Essa descrição é reveladora de como o conhecimento geral sobre as culturas originárias da América é limitado entre os espanhóis. Os milhares de tweets trocados durante a estreia de Hernán demonstram que a curiosidade a respeito do passado existe, resta saber promovê-la. A ficção histórica pode ser um caminho.

8 pontos de vista: Hernán Cortés, Malintzi, Moctezuma, Bernal del Castilho, Xicotencatl, Alvarado, Sandoval e Olid.

Para tanto, as representações devem abarcar ao máximo a diversidade cultural. Hernán, por exemplo, traz o ponto de vista de oito personagens reais que vivenciaram a conquista do império asteca, o que permite um viés rico em nuances.


Ao lado da língua espanhola, os idiomas nativos maia e náhuatl presentes na série também propõem trocas e descobertas. “A sociedade quer ouvir outras formas de falar, outros modos de pensar” - diz a CEO da Dopamina, Fidele Navarro.


“Temos que deixar de medos e contar a história, quebrar o silêncio” – conclui Óscar Jaenada.


Quebrando o silêncio – e algo mais...


Numa quarta-feira do ano de 2010 o prefeito de Medellín, na Espanha, acordou indignado. A estátua de Hernán Cortés, nascido na cidade, apareceu manchada de tinta vermelha.

Estátua de Hernán Cortés na praça da cidade de Medellin, Espanha. Imagem de divulgação, EFE.

Segundo o jornal El Mundo o ataque foi feito pelo grupo Citizens Anonymous, que o justifica por ser um "insulto" ao México já que "Cortés aparece de armadura, pisando sobre a cabeça de um indígena".

Em comunicado enviado a EFE, o grupo exigiu a substituição da estátua por um monumento dedicado “a todos os mortos nessas invasões, em que as pessoas derrotadas sejam retratadas com dignidade".


O prefeito Antonio Parral condenou o "ato de vandalismo" e criticou a "falta de conhecimento histórico". Segundo ele a peça não representa a cabeça decapitada de um nativo, e sim de um dos deuses da cultura asteca.


"Não sei se é uma ofensa cultural", reconheceu ao jornal El Mundo. “O artista não desejou ofender, e sim homenagear um filho desta cidade”. A escultura, que remonta a 130 anos, “reflete a mentalidade da época”.


Mas até que ponto existe algo como uma mentalidade, no singular? Seria razoável pensar que no passado, como no presente, havia opiniões divergentes. “Muitas pessoas corajosas protestavam contra essas atrocidades na época” comenta Charlotte Riley.


De fato, estamos constantemente envolvidos em um processo de reavaliar o passado e reinterpretar histórias que pensávamos que sabíamos.


“Hernán Cortés é um personagem que ninguém ama, nem mesmo o espanhol. Em todos os lugares em que pisava, queimava o chão e explorava" – diz hoje o mesmo Oscar Jaenada que, há dois anos, passaria indiferente diante da estátua em Medellín. Para muitos, ter que ver essas esculturas é um ato diário de violência.


O passado pode estar morto, mas a história está viva e é construída no presente. "Quando uma estatua cai, aprendemos um pouco mais" conclui Charlotte Riley.



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