Produção de alimentos e culinária no Egito Antigo

Atualizado: Jan 30

(Por Michell Alves de Almeida Ricarte. Escrevi para a disciplina de História Antiga Oriental, quando estava no 1º período do curso de História/UFCG).


1.Introdução


A princípio o título pensado para o presente artigo foi “Alimentação no Egito Antigo”, mas, para que tal tema fosse desenvolvido, seria necessário falar também das condições em que os alimentos eram produzidos, condições climáticas, sociais, etc., que influenciavam no processo, e técnicas de produção, que no Egito Antigo são muito avançadas, superando em nível tecnológico até mesmo as técnicas de sociedades que no curso da história estão mais próximas do presente do que os egípcios antigos. Por isto, a mudança de título. O presente artigo tem como objetivo analisar a alimentação no Egito antigo, das inundações do rio Nilo que favorecem o adubamento da terra às formas de preparar uma refeição no tempo dos faraós. Para tal utilizou-se principalmente do livro II do historiador grego Heródoto, intitulado Euterpe; do texto da historiadora especialista em Egiptologia, Edda Bresciani, presente no livro História da Alimentação organizado por Flandrin e Montanari, que foi chamado “Alimentos e bebidas do Antigo Egito” ; do livro O Egito Antigo do historiador Ciro Flamarion S. Cardoso e do livro o Egito no Tempo de Ramsés, de Pierre Montet,. Também foram utilizadas fontes iconográficas.

Como base teórica, entendendo que o texto tem relação com o campo da História da Alimentação, foram utilizadas algumas ideias do historiador Henrique Carneiro, presentes em seu livro “Comida e sociedade: uma história da alimentação”. Nesse sentido, pretendo abordar a alimentação sob diferentes perspectivas. A alimentação, a egípcia,nesse caso, é vista nesse artigo enquanto parte de um modelo de economia, enquanto um conjunto de práticas sociais e enquanto elemento simbólico de uma cultura.


2. Produção de Alimentos

Ao ouvir as palavras Nilo e agricultura na mesma frase logo nos vem à mente a famosa frase atribuída ao historiador grego do século V a.C., Heródoto : “ O Egito é uma dádiva do Nilo”. Faz muito sentido tal frase, visto que o Egito só obteve grande desenvolvimento agrícola, e por conseguinte também econômico, devido a importância de tal rio. Na verdade só houve sociedade egípcia (tal como a conhecemos) devido ao Nilo.

A região que compõe o território egípcio é cercada por desertos e tem um clima bastante árido e, como apontam alguns estudiosos no assunto,por volta de 3.300 a 3000 a.C., os níveis de pluviosidade na região sofreram uma queda bastante significativa, o que não favorece em nada o plantio. No Egito faraônico as populações dependiam estritamente das águas do Nilo que em determinado momento do ano sofria cheias.

O rio Nilo nasce em uma região mais ao sul, em um lugar em que os níveis de chuvas são bastante consideráveis. Com as cheias, vinha a matéria orgânica, húmus, com grande poder de fertilização. Tal rio era tido, entre os egípcios da época, como sendo uma verdadeira divindade.Muitos faziam oferendas a ele, acreditando estar fazendo com que as cheias periódicas fossem garantidas no ano. Para servirem como reservatórios de água ( que garantiam, na seca,a irrigação da produção), os egípcios construíam grandes diques e barragens. Tanques também foram bastante utilizados.

O rio Nilo, de forma natural, era quem dividia o ano, em basicamente três épocas, a primeira era o AKHET, período que se estendia dos meses de julho a setembro e era o período de cheias do Nilo[1], o segundo era o PERET, que se alongava do mês de outubro a fevereiro, era tempo de plantio. Logo em seguida, entre os meses de março e junho, se tinha o SHAMU ,a época das colheitas[2]. A produção de alimentos no Egito Antigo era bastante diversificada, mas em se tratando de campo e grãos ( e aqui nesta parte darei ênfase à produção deles), o trigo e a cevada tinham lugar de destaque.

Muitos instrumentos foram usados na produção de alimentos nos campos egípcios,e é interessante destacar que o ferro não foi muito usado durante grande parte do longo período pelo qual perdurou o Egito ao qual estou me referindo.

A grande maioria dos instrumento usados nos campos era feita de madeira. Um utensílio que foi muito usado, a partir de certo período, foi o Shaduf , com o qual as pessoas podiam, por meio de um sistema mecânico,levar água de um reservatório ( ou do próprio rio Nilo) para as plantações.A respeito do Shaduf ,o historiador marxista brasileiro, Ciro Flamarion Santana Cardoso, disse o seguinte: “o shaduf- instrumento simples,baseado no princípio do contrapeso, para elevação de recipientes com água - só foi introduzido no séculoXIV, enquanto aparece em um sinete mesopotâmico uns seiscentos anos antes” (CARDOSO, 1986,p.27).

A semeadura é feita na maior parte do tempo quando a terra ainda está mole, para enterrar as sementes geralmente os egípcios colocavam na lavoura alguns animais que as pisoteavam até que entrassem na terra. Quando acontecia de a terra não estar amolecida, eles usavam enxadas para escavarem pequenas covas. A colheita dos cereais era feita pelos ceifeiros, que vão colocando as espigas em grandes sacos, geralmente vinha,atrás deles, uma mulher recolhendo as que caiam no chão.Colhida, a produção era reservada e descascada. Para este processo, novamente o uso de animais faz-se necessário para que pisem os grão e retirem a casca deles. A imagem a seguir ilustra bem este estágio da produção.

Figura 1: na imagem, bois pisoteiam o trigo, para que a casca fosse arrancada. Prática muito usada no tempo dos faraós. Imagem: Emaze


Após isto tudo, os alimentos são guardados em celeiros, de formato cilíndrico, na maior parte dos casos. Quase sempre eram bem grandes, tanto que usavam até escadas para poderem depositar os grãos dentro deles. Outras formas de se obter alimentos, além da agricultura eram as pescas e a caças, por exemplo.


3. Alimentação

A partir do que foi escrito na parte dois deste artigo, pode-se observar que dentro da culinária egípcia antiga, os grãos, em especial o trigo e a cevada, tinham papéis de destaque.A eles eram dados vários usos, como, por exemplo, o fabrico do pão ( que tinha seu processo de fabrico bem parecido com o dos dias atuais) e da cerveja (mas vamos nos concentrar nos alimentos), mas é preciso destacar que a alimentação egípcia não se resume a isto. É bem mais diversificada, muito rica nutricionalmente falando, inclusive. As proteínas vinham bastante da carne de boi e de peixes. A carne de gado bovino era muito apreciada e não era qualquer um que tinha acesso a ela, mesmo porquê não era todo mundo que poderia possuir criação de gado, ficando isto muito restrito às classes hierárquicas mais elevadas. Muito desses conhecimentos são obtidos através de pinturas feitas, a época, em túmulos, onde se tinham ilustrações de matadouros e imagens de uma certa espécie de preparo da carne. Muitos bois também eram mortos por sacerdotes em templos,até mesmo para que, além de alimento, servissem como parte de rituais religiosos.A respeito disto Heródoto diz o seguinte:

“Depois de esfolar o boi e pronunciar as preces os sacerdotes retiram o estômago inteiro da vítima, deixando as entranhas restantes e a gordura na carcaça, e cortam as pernas, a extremidade do lombo, as espáduas e o pescoço. Isto feito, eles enchem o resto da carcaça do boi com pão duro, mel, passas, figos incenso, mirra e outros produtos aromáticos e em seguida a queimam, espargindo muito azeite de oliva sobre ela.” (HERÔDOTOS,1985,livro II, cap.40,p.101)

Por mais que o gado bovino tenha sido de fato o mais consumido, o gado caprino e ovino também foi servido nas refeições dos antigos egípcios. O gado não fornecia apenas a carne, mas também o leite e gordura, e os egípcios sabiam aproveitar muito bem isto. Há vestígios arqueológicos e registros em forma de pinturas que mostram que eles faziam bastante manteiga e queijo com o leite. A gordura foi muito usada como tempero.

No que se refere ao peixe (uma forte de proteína, mas também alimento rico em ferro, cálcio e vitamina A), todas as pessoas tinham certo acesso facilitado a esta forma de alimentação, visto que tinham contato com o rio Nilo e pescavam muito. Muitas eram as espécies de peixes consumidos, entre elas certamente se destacavam a tilápia, a carpa e o sorgo. Os antigos egípcios também se alimentavam muito de enguias, o que, para muito de nós,é estranho.

Em relação aos porcos, Heródoto (HERÔDOTOS,1988,livro II, cap.40,p.101) diz “Os egípcios consideram os porcos animais impuros” , mas de acordo com a historiadora, especialista em Egiptologia, Edda Bresciani[3] (BRESCIANI,1998,p.74), “os porcos ocupavam um lugar de destaque na alimentação do antigo Egito. Talvez esta carne só fosse proibida nas oferendas ritualísticas”.

Muitas pessoas destinavam alimentos aos deuses, como forma de oferenda, em busca de obter ,com isto, alguns benefícios. Muitos vestígios de alimentos foram encontrados em túmulos, isto muito devido à crença que os egípcios tinham na vida no Além. De acordo com o pensamento da época, antes de chegar ao tão sonhado lugar, a pessoa que morreu passaria por alguns obstáculos,neste percurso precisava, claro, de alimentação.Tal mentalidade justifica os registros arqueológicos citados. Muitos alimentos eram usados em práticas medicinais, também.Uma carne cozida da forma certa, acreditavam os egípcios, poderia curar uma pessoa de alguns problemas estomacais.

Um tipo de comida que agradava muito ao paladar das pessoas no tempo dos faraós, eram as aves. Por mais que a galinha, atualmente uma das aves mais consumidas, não fosse conhecida durante muito tempo no Egito, eles comiam aves em grande frequência. A começar pelos pássaros que caçavam próximos aos rios, como, por exemplo, a codorna.

O egípcios comiam gansos, e até mesmo pombos, que geralmente eram temperados com uma boa quantidade de coentro e algumas plantas aromáticas.

Eles comiam carnes assadas, cozidas. Os egípcios possuíam hortas, certamente não seria difícil encontrar em uma mesa egípcia um ganso assado junto com cebolas e alho-poró, e acompanhados com uma bela salada de alface com pepinos. Grão-de-bico e favas poderiam acompanhar a refeição. Para preparar carnes fritas,usavam óleos vegetais extraídos de algumas plantas presentes na região, como, por exemplo, o gergelim de linho. Mas também usavam a gordura de animais como o ganso e o boi.

A imagem a seguir mostra um pouco da culinária egípcia:

Figura 2: na imagem observa-se alguns víveres bastante consumidos durante o Egito Antigo, a exemplo do ganso e do peixe. Provavelmente é a representação de a mesa de um banquete. A imagem encontra-se disponível no seguinte endereço: http://eebsilvajardim.blogspot.com.br/2012/07/arte-egipcia-arte-da-imortalidade.html


Outra forma de alimentação bastante utilizada foram as frutas. Eram bastante variadas e os pomares eram muitos. Os antigos egípcios comiam tâmaras, fígados, abacates, etc. A partir de alguns contatos com outros povos, com o tempo vão incorporando à sua culinária algumas outras frutas. Um exemplo disto é o cultivo de algumas frutas como a romãzeira, que chega ao Egito, somente por volta da décima oitava dinastia. O mesmo ocorre com a macieira. Algumas árvores frutíferas chegaram até a serem consagrados a deuses ou deusas. Um exemplo é o sicômoro[4] , que era consagrado à deusa Hator, deusa do amor, dentro da religião politeísta egípcia.


4. Considerações finais

Podemos notar que, por mais que a sociedade que habitou o Egito durante a Antiguidade tenha se desenvolvido em um período temporal muito distante do nosso,alguns elementos da alimentação daquele povo se parecem muitos com alguns do nosso tempo. Carnes bem temperadas,saladas, cultivo de hortas, são alguns exemplos. Outra coisa interessante de ser destacada é o uso de gordura animal para a fritura de carnes, pois tal prática é ainda muito utilizada atualmente em muitas comunidades indígenas e ribeirinhas ( acredito que até mesmo em núcleos urbanos isto ocorre).

A forma de armazenagem de grão também não é tão diferente das que ocorrem em algumas regiões do interior do Nordeste do Brasil, por exemplo, onde pequenos agricultores armazenam a sua produção em grandes silos, quando a colheita é boa, claro.A diferença crucial é a água que falta, para que haja boa produção. Nesse sentido, nota-se a grande importância do rio Nilo para que os camponeses egípcios pudessem produzir em grande quantidade.

Podemos retornar com isto a ideia de que a história é feita de descontinuidades, mas também de permanências, por mais que sejam permanências, claro, resignificadas.


5. Referências

HERÔDOTOS. História. Trad. de Mário da Gama Kury. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1985.

BRESCIANI, Edda. Alimentos e bebidas do Antigo Egito In: FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo. História da Alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998.

BAINES, John; MALIK, Jaromir. Cultural Atlas of Ancient Egypt. London: Andromeda Oxford Limited, 2008.

CARNEIRO, Henrique. Comida e Sociedade: uma história da alimentação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003 – 7a Reimpressão.

CARDOSO,Ciro Flamarion. O Egito Antigo. São Paulo: Brasiliense, 5ª edição,1986

MONET, Pierre. O Egito no Tempo de Ramsés. São Paulo,SP: Companhia das Letras Círculo do Livro, 1989.

__________

[1] Neste momento, como, devido a cheia, não era possível plantar, os camponeses eram direcionados a trabalharem em grandes obras públicas, como, por exemplo, na construção de tempos e pirâmides.

[2] É interessante destacar que essa periodização não é cem por cento certa, na medida em que há muitas divergências de região para região.Alguns historiadores também divergem quanto a isto.

[3]In: FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo. História da Alimentação.

[4] Também conhecido como “figueira-doida”.

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