• Leonardo Kröhling

Por que Tiradentes se tornou um herói nacional?

Atualizado: Mai 17

Entenda como um alferes mineiro conhecido por arrancar dentes se transformou, quase 100 anos após sua morte, num herói nacional que se assemelha fisicamente a Jesus Cristo


Dia 21 de Abril é feriado em todo Brasil. É dia de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, um dos heróis nacionais mais importantes do Estado brasileiro. Sua história é bem conhecida pelos brasileiros. Resumindo, Tiradentes (1746-1792) foi um alferes conhecido por arrancar dentes que, em 1789, participou da chamada Inconfidência Mineira, um movimento que buscava a separação política da região das minas em relação a Portugal. Entretanto por conta de um dedo-duro, acabou sendo condenado à forca, esquartejado, e teve seus restos espalhados por pontos estratégicos entre o caminho de Vila Rica (atual Ouro Preto) e o Rio de Janeiro como espécie de "que sirva de lição". Hoje em dia ele é patrono cívico do Brasil, patrono das Polícias Militares e Polícias Civis de todo o país e estampa a nossa moeda de cinco centavos.


"Retrato de Joaquim José da Silva Xavier - Tiradentes" (1922), de Oscar Pereira da Silva.

A imagem e detalhes da história do inconfidente são bem controversos. De tempos em tempos, a figura do inconfidente se torna alvo de revisionismos e teorias da conspiração (como por exemplo, uma onde ele teria fugido para a França antes da execução e que a pessoa executada seria um pobre carpinteiro). O mineiro também é uma figura bem peculiar da história brasileira, pois foi transformado em símbolo nacional quase 100 anos após sua morte num momento muito delicado: a transição entre Monarquia para República. A transformação de Joaquim José em herói nacional fez nascer um novo personagem: o Tiradentes símbolo. Mas como esse ilustre habitante de Vila Rica, que foi "esquecido" durante o Império, se tornou num herói nacional após a Proclamação da República?


Na década de 1870, em especial após a Convenção de Itu, o republicanismo começava a se articular no cenário político brasileiro. Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, em sua obra "A Formação das Almas", era um movimento das elites e de intelectuais e tinha diversas correntes ideológicas (fato pouco conhecido entre os brasileiros). Os positivistas defendiam uma República tecnocrata, modernizadora, centralizadora, científica. Já os jacobinos se inspiravam na Revolução Francesa, tendo propostas mais radicais como a democracia direta. Os liberais à americana defendiam uma República estilo estadunidense, visando o federalismo e à manutenção da ordem social. Estes diferentes republicanismos precisavam de uma figura que representasse a causa como um todo, que reunisse as distintas e incipientes vozes republicanas para a construção de um novo projeto de país após a derrocada do Império. O símbolo escolhido foi Tiradentes.


Por ser o inconfidente mais próximo ao povo (o mais pobre entre eles), por conta da violência excessiva aplicada e pela distribuição macabra de seus restos mortais entre as estradas locais, Tiradentes já fazia parte da memória coletiva dos habitantes da região interprovincial das Minas Gerais e do Rio de Janeiro, sendo muito admirado entre os republicanos mineiros e fluminenses. Após a independência, o Brasil continuou com uma forma monárquica de poder, e para os republicanos Tiradentes simbolizava um ideal. Em 1789, o inconfidente desafiou Portugal e a mesma família que ainda governava o Brasil visando a liberdade e independência política, segundo historiadores, da região mineradora de Minas Gerais e o Rio de Janeiro somente (e não do Brasil inteiro como muitas pessoas acreditam).


A grande figura da época era o imperador Dom Pedro I (o homem que proclamou a independência, pai do admirável Dom Pedro II e o símbolo do sistema monárquico de poder no país). Entretanto quando a República chegou, por meio de um golpe militar articulado pelo Exército, havia uma necessidade imensa de estabelecer um panteão cívico e um novo herói nacional que representasse o sistema republicano. Marechal Floriano, Marechal Deodoro, Benjamin Constant e Quintino de Bocaiúva foram os principais personagens da quartelada de 15 de Novembro de 1889 e eram os principais candidatos ao novo posto de herói nacional. Contudo cada um tinha os seus problemas (problemas esses que mais dividiam do que uniam). Floriano era ligado aos jacobinos, figura questionável e pouco influente nesse primeiro momento. Deodoro tinha um republicanismo incerto, já era velho e lembrava o imperador. Constant era republicaníssimo, entretanto só era popular no meio positivista e não tinha jeito de herói. Bocaiúva, representante dos liberais, era um dos poucos civis presentes e por isso foi logo descartado. Esses personagens possuíam visões diferentes de um novo Brasil e isso dificultava a escolha.


Deodoro, Floriano, Constant e Bocaiúva. © WikimediaCommons

Enquanto essa discussão acontecia, a imagem de Tiradentes se tornava cada vez mais popular, primeiro entre os mineiros, fluminenses, paulistas, literatos, abolicionistas, etc. Nos últimos anos do Império, até monarquistas queriam se apropriar da figura de Tiradentes para legitimar a monarquia. Mas porquê não escolher figuras tão republicanas quanto Tiradentes como Bento Gonçalves (ou outros farroupilhos) ou frei Caneca? Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, os gaúchos sempre tiveram uma característica mais regional do que nacional e frei Caneca, embora tivesse participado de duas revoltas (Revolução Pernambucana e Confederação do Equador), não teve um martírio tão simbólico como Tiradentes (este foi enforcado, aquele fuzilado). Além disso, o fator geográfico conspirava à favor do inconfidente. A memória coletiva sobre Tiradentes estava no centro político e econômico do Brasil, o que colaborava ainda mais com a escolha do mineiro.


Uma das grandes sacadas foi associar Tiradentes à figura de Jesus Cristo, pois quase 100% da população era católica na época. Os dois morreram por um ideal. Os dois tiveram uma postura mística e religiosa em suas execuções. A forca era como a cruz, o Rocio (local onde o inconfidente foi executado) era como o Calvário, o Rio de Janeiro era como Jerusalém, Joaquim Silvério dos Reis (o traidor da inconfidência) era como Judas. Para finalizar, a disseminação de litogravuras, pinturas e representações de um Tiradentes nazareno, de cabelos longos, branco, às vezes com uma longa barba, facilitou muito a aceitação do novo herói.


"Tiradentes esquartejado" (1893), de Pedro Américo.

Joaquim José da Silva Xavier nunca foi representado em vida por meio de pinturas e são raríssimas suas descrições em documentos da época de sua morte. Essa foi a grande sacada dos republicanos, pois puderam modelar a imagem de Tiradentes em prol da causa. Desde a década de 1940 historiadores buscam descobrir sua verdadeira aparência, por isso cabelos longos e barba foram descartados (ele era militar e não poderia ter esse visual). Portanto, de modo geral, como ele realmente era em vida pouco importa quando estudamos a sua importância para história do Brasil, fazendo somente sentido quando tratamos de sua biografia.


"Tiradentes" (1949), de José Wasth Rodrigues.

Referências


CARVALHO, José Murilo de; Tiradentes: um herói para a República in A formação das almas. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

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