• Pablo Bráulio

O ensino de história em tempos de pandemia

A pandemia de covid-19 exigiu a interrupção das atividades escolares presenciais no mundo todo. No Brasil não foi diferente. As escolas de Educação Básica fecharam desde meados de março e ainda não há previsão para a retomada das aulas presenciais. Coube às redes públicas e aos estabelecimentos privados de ensino buscar alternativas para a situação. Professoras e professores de História vão se virando como podem.

(Foto: Agência Brasil)

Suspensão das aulas e ensino não presencial


No início de abril, o Ministério da Educação (MEC) dispensou as escolas de cumprirem o mínimo de 200 dias letivos, conforme exigido pela Lei 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB), mas manteve a obrigatoriedade de 800 horas no ano. Já o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou, no final do mesmo mês, um parecer autorizando atividades não presenciais em todas as etapas da educação formal.


As instituições de ensino privadas e as redes públicas têm se apoiado nessas decisões para manter suas atividades educacionais de forma remota e reorganizar o calendário letivo nos termos colocados pelo MEC e pelo CNE. Plataformas digitais de educação, transmissões televisivas ou radiofônicas, impressão de apostilas para serem remetidas por correio e outros recursos mais improvisados estão sendo mobilizados Brasil afora para que não haja interrupção total das atividades escolares.


Os resultados desses esforços são pouco satisfatórios e as entidades de classe ligadas aos profissionais da educação têm apontado o problema da exclusão digital no país. Em São Paulo, por exemplo, na primeira semana de atividades remotas, menos da metade dos estudantes da rede pública acessaram o ambiente virtual disponibilizado pela Secretaria Estadual de Educação.


No Brasil, 70 milhões de pessoas têm acesso precário ou nenhum acesso à internet. A falta de recursos tecnológicos é apenas um dos obstáculos para a educação à distância.


A dura realidade de boa parte dos estudantes brasileiros motivou a mobilização de várias organizações e influenciadores digitais pelo adiamento do ENEM, exame que possibilita acesso a vagas no ensino superior. As provas do ENEM foram marcadas para novembro e o Ministério da Educação se manteve por muito tempo irredutível nessa decisão, mas acabou por recuar.


Ensino à distância e desigualdade social


Reportagem publicada pelo Nexo Jornal alerta para o risco de o ensino à distância agravar ainda mais as desigualdades no Brasil. Na mesma linha, argumenta o professor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Zacarias Gama, em artigo publicado no site Justificando. Outros pesquisadores, organizações e veículos de imprensa têm repercutido essa preocupação.


As razões são óbvias: enquanto estudantes de colégios privados dispõem de recursos tecnológicos em casa, a maior parte dos estudantes de escolas públicas vive em contextos de grande precariedade e suas famílias lutam para suprir as necessidades básicas de sobrevivência em tempos de pandemia. A manutenção das atividades escolares em modo online no Brasil só reforça e aprofunda os enormes abismos que caracterizam a sociedade brasileira.


Quero crer que, se dependesse exclusivamente dos profissionais da Educação, as aulas seriam totalmente interrompidas, justamente para que não se tornem agentes da reprodução dessas desigualdades. Professoras e professores não ficariam à toa durante a pandemia. Poderiam continuar a estimular estudantes e assessorar suas famílias com atividades extracurriculares oferecidas de modo remoto.


Contudo, a lógica de mercado é o que predomina. Colégios privados (e seus clientes) operam no modo da competição e enxergam a educação como uma mercadoria a ser entregue. Não deixaram de cumprir os conteúdos curriculares, apenas mudaram a forma de entregar seu produto. Numa perspectiva bem diversa, as escolas públicas se veem ainda mais combalidas diante da pandemia, mas seus professores se esforçam para oferecer oportunidades mínimas de aprendizagem a todos.

(Foto: G1/Amigos do Bem)

Homeoffice educacional


Em suas casas, professoras e professores da Educação Básica têm se virado para manter estudantes engajados na educação à distância (ou, como preferem alguns: remota). A maior parte dos esforços é improvisada e depende do voluntarismo dos próprios professores: videoaulas, plantões virtuais, grupos de whatsapp, redes sociais, formulários online, plataformas digitais de educação e uma infinidade de aplicativos de videoconferência são as ferramentas com as quais profissionais do magistério vêm se familiarizando às pressas para atender às determinações de suas escolas.


O improviso das soluções encontradas pelas secretarias de educação e colégios privados é criticado pelas entidades sindicais e coletivos de professores, que também têm denunciado o assédio e os abusos contra profissionais da educação.


Muitos desses profissionais são convocados para reuniões presenciais, são obrigados a expor sua privacidade, a dispor de seus próprios recursos materiais e a ceder direitos autorais para produzir conteúdos educacionais gratuitamente em formatos diversos, além das ameaças constantes de corte salarial e demissão. Uma queixa recorrente entre professores e professoras é o aumento da carga de trabalho, já que a produção de conteúdos digitais demanda estudos extras e horas de dedicação.


E como fica o ensino de história nesse contexto?

Professores e professoras de História procuram adequar suas aulas às novas condições e ferramentas de trabalho. Diante das exigências dos estabelecimentos de ensino, seja no setor público ou privado, milhares de profissionais têm se dedicado à produção de conteúdos que possam suscitar o conhecimento histórico numa relação pedagógica mediada exclusivamente por equipamentos tecnológicos de comunicação à distância. Um desafio e tanto!


Parêntese: o propósito aqui neste artigo, bem como em todos os anteriores que escrevi para o Máquina dos Tempos, é propor reflexões e abordagens possíveis e não prescrever “modelos” de atuação para professores e professoras de História. O tema aqui pode ser discutido sob aspectos múltiplos e muito diversos, mas optei por me ater apenas a uma dimensão do ensino de História.


Sem dúvidas estamos atravessando um momento histórico! Não que houvesse menos história em outros momentos que vivenciamos. Mas certamente esta pandemia estará nos livros didáticos do futuro e muitos analistas consideram que o mundo pós-pandemia será bem diferente do que conhecíamos antes de 2020. Há quem diga que este ano marca o início do século XXI, alargando até a pandemia de covid-19 o “breve século XX” do historiador Eric Hobsbawm.


Portanto, poucos momentos são tão propícios para que jovens e adolescentes pensem historicamente. Poucas oportunidades possibilitam aguçar o pensamento sobre o passado, o presente e o futuro; suscitar a reflexão sobre o tempo como algo que constitui a nossa existência; e promover uma aproximação entre o conhecimento histórico e a vida dos estudantes.


Neste momento, mais do que ensinar a formação do Estado no mundo antigo, a relação de suserania e vassalagem no Feudalismo ou o papel da burguesia na derrubada do Antigo Regime, será que não poderíamos ajudar os estudantes a apurar sua percepção para o que estamos vivendo hoje? Não se trata de um elogio ao “presentismo”, mas de aproximar a molecada do conhecimento histórico a partir de uma reflexão sobre suas próprias vivências.


Seja durante ou após a pandemia, seja pelos recursos de educação à distância ou nas aulas presenciais que serão retomadas nos termos do “novo normal” que nos aguarda quando a pandemia acabar, precisamos refletir muito sobre essa experiência e suscitar essa reflexão nos estudantes da Educação Básica.


A experiência da pandemia precisa ser verbalizada por crianças e adolescentes, precisa ser transformada em narrativas, dúvidas e posicionamentos. É preciso falar das mortes, do luto, da doença e da saúde, do isolamento social, do meio ambiente, do conhecimento científico, do poder do Estado, do desemprego, das desigualdades, da solidariedade entre as pessoas, da colaboração, dos afetos (medo, angústia, preocupação, ansiedade, gratidão, saudade etc.), das memórias e das expectativas.


E os professores das áreas de ciências humanas podem assumir um papel importante nesse processo. Estimular debates e rodas de conversa, produzir diários, realizar entrevistas, promover a criação artística (música, pintura, teatro etc.) são formas de estimular a expressão dos sentimentos, a troca de experiências e a reflexão sobre o tempo. Tudo isso pode ajudar não apenas na compreensão da historicidade como também no enfrentamento das adversidades que o tempo atual nos impõe.

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