O carnaval da tristeza: os motins urbanos do 24 de agosto



No álbum Tropicália 2, dos músicos Caetano Veloso e Gilberto Gil, há a música desde que o samba é samba, canção conhecida a qual em seu verso inicial brada: “A tristeza é senhora”. Não todos os dias, mas não há como negar: tem dias que realmente somente ela é a senhora. O dia 24 de agosto de 1954, por exemplo, para o historiador Jorge Luis Ferreira, foi um grande carnaval fora de época, o qual a tristeza foi a senhora.


Metaforizando os dias do ano em que as pessoas intensificam suas emoções, rindo e se embalando na alegria, Jorge Ferreira historiador e professor titular da Universidade Federal Fluminense, inverte as alegrias do 2 de março de 1954 para a tristeza fúnebre de 24 de agosto do mesmo ano – um segundo carnaval, por sua vez, fora de época, triste e enlutado. Que haveria de ser um dia normal, como qualquer outro, caso não tivesse sido veiculada pelos diversos setores da sociedade brasileira “uma notícia da mais alta gravidade” (FERREIRA, 2005, p. 62), despacho da notícia? o presidente Getúlio Vargas deu um tiro no próprio peito.


Nesse dia, como em qualquer outro “carnaval” houve êxtase popular, mas as emoções que se intensificaram foram de um generalizado luto e uma pavorosa revolta. O emblemático 24 de agosto entrou para a história do Brasil – assim como Vargas.


Adentrando com mais objetividade na obra de Jorge Ferreira, percebemos que desde cedo o historiador escreve com o intuito de envolver o leitor. Basta ler o título do capítulo que já se aguça a imaginação: “O carnaval da tristeza: os motins urbanos do 24 de agosto” (grifo meu), no livro cujo título é O imaginário trabalhista: getulismo, PTB e cultura política popular 1945-1964 (2005). Nessa parte do livro o objetivo do autor é explorar historicamente as manifestações de tristeza e as revoltas e agitações da população urbana – os chamados motins populares – que ocorreram após o suicídio de Getúlio Vargas (1882-1954).


A tese de Jorge Ferreira é clara e incisiva: que, mesmo passados tantos anos, os acontecimentos ocorridos após o suicídio de Vargas resultaram em “um cotidiano de uma guerra social prolongada” (p. 96). E para entender isso o suicídio de Vargas por si só não é o suficiente. Temos que observar todo o conjunto de símbolos, imagens, ideias, expectativas, que fizeram com que homens e mulheres “comuns” – em meados da década de 1950 – fossem as ruas protestar e descarregar suas amarguras, dores e sofrimentos.


Além de sua tese é importante temos em mente seus referenciais teóricos. Com relação a isso podemos dizer que é vasto e múltiplo, o autor dialoga com autores que vai de Robert Darnton (1986) à E. P. Thompson (1984). Além do mais busca analisar em conjunto com obras como história cultural. Entre práticas e representações (1978) de Roger Chartier ou Ideologias, conflitos e poder (1978) de Pierre Ansart; outros nomes aparecem ao longo do trabalho, vemos: Mircea Eliade, Clinfford Geertz e Peter Burke. No geral, são autores bem conhecidos e explorados entre os historiadores e historiadoras.


Enfim, tendo em mente partes fundamentais para o entendimento e compreensão do texto, podemos agora partir para uma revisão mais direta do escrito. Ou seja, podemos sintetizar com mais especificidade suas discussões, que vai da recepção da notícia da morte de Getúlio Vargas; regride no mês de Agosto e o imaginário da crise; tece considerações sobre Os motins populares no Rio de Janeiro; evidencia o momento o qual Começam os distúrbios; explora A visitação ao palácio; explana sobre O cortejo e novos distúrbios; analisa acerca da A insurreição popular em Porto Alegre e As manifestações em São Paulo e Belo Horizonte, além do mais temos Nordeste: emoção e desalento e finalmente encerra suas discussões em A ordem, tudo isso no “Carnaval da tristeza”.


Jorge Luis Ferreira inicia seu texto com uma epígrafe digna de abrir um “carnaval da tristeza”, trata-se de uma parte da música Roda Vida, do cantor e compositor Chico Buarque. Diz a canção: “tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu, a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu...”. Nada mais conveniente do que a letra dessa música para sintetizar um “momento de perplexidade e espanto que ninguém queria acreditar” (Leôncio Basbaum apud Ferreira, p. 62). Esse momento ficou cravado na história com um tiro no peito do presidente, disparado por ele próprio.


Através desse fato, Ferreira faz um apanhando rápido e superficial de como amanheceu a cidade do Rio de Janeiro em 24 de agosto de 1954, após o suicídio do presidente Getúlio Vargas; segundo o autor, nesse dia grupos imensos de trabalhadores e populares se preparavam para tomar suas ruas.


Para o historiador, os círculos de cultura conservadora, a “multidão”, a aglomeração humana (em particular a dos pobres) representa iminência de perigo para as instituições (FERREIRA, 2005). Mesmo assim, ao ver de Ferreira (2005, p. 50), George Rudé, Eric Hobsbawn e E. P. Thompson, mostram que aqueles antes qualificados de “camadas inferiores da sociedade” têm cultura própria, um discurso especifico, de formas de resistência, maneiras particulares de organização e autodefesa.


Nesse sentido, vemos que ao longo do texto Ferreira vem destacar que o elemento que reforçou de maneira determinante o recuo dos golpistas foi a entrada no cenário político de uma multidão amargurada, revoltada e enfurecida que questionou, assustou e mesmo ameaçou o grupo oposicionista que se preparava para tomar o poder (FERREIRA, 2005, p. 63).


Em Agosto e o imaginário da crise, o autor comenta que o suicídio de Vargas não se tratou de algo solto, sem contexto ou fora de um processo histórico, político. Ao longo da leitura dessa parte percebemos que esse momento desencadeou uma série de eventos, mas também foi a culminância de outros eventos que haviam se desenrolando no cenário político. Por exemplo, desde o começo do mês de agosto os grupos de oposição a Vargas já se articulavam através da mídia e dos militares, com o intuito de desestabilizar o governo e promover um golpe (2005, p. 68-71). Segundo Ferreira, “acuado diante da crise, com margem mínima de manobra, Vargas encontrava-se em situação difícil e deligadas. Sem poder defender-se dos ataques” (FERREIRA, 2005, p. 70).


Já em Os motins populares no Rio de Janeiro, basicamente o autor aponta que os sentimentos de injustiça provocaram violentos motins populares, apesar da grande repressão policial. Por exemplo, líderes sindicalistas articulavam greve geral, mas a repressão prendeu cerca de 50 sindicalistas. (FERREIRA, 2005, p. 72).


Posteriormente em Começam os distúrbios, o autor vem mostrar que a reverência ao presidente falecido era quase uma obsessão popular. Mais do que isso, é possível notar, a partir da leitura, que os trabalhadores e os populares a partir do trauma da morte de Vargas transformaram suas leituras da realidade social as quais viviam, isto é: perceberam que “sua própria identidade social como o ‘nós’ se contrapunham a ‘eles’” (FERREIRA, 2005, p. 75). Foi nesse sentido que, “na capital da república, a notícia do suicídio de Vargas detonou inquestionavelmente na população um profundo sentimento de revolta e amargura. Grupos de populares, indignados, passaram a percorrer as ruas do centro da cidade com paus e pedras (FERREIRA, 2005, p. 72).


Por conseguinte, em A visitação ao palácio e O cortejo e novos distúrbios, Jorge Ferreira mostra que a apreensão em ver o corpo de Vargas se tornou angustiante e algo conturbado. “Homens e mulheres choravam compulsivamente e muitas senhoras jogavam-se no caixão em lágrimas” (2005, p. 76), mais do que isso, o autor aponta ainda que: “uma jovem faleceu, vítima de um colapso cardíaco” (2005, p. 77). Durante os cortejos fúnebres a comoção ficou ainda mais generalizada, “de uma só vez cinco ou seis pessoas desmaiavam ou tinham crises nervosas” (2005, p. 77), isso nos mostra que os novos distúrbios se deram pelas vias do luto e da tristeza.


O autor comenta ainda que o trauma sentido com a morte de Vargas implicou não apenas uma tomada de consciência, mas também um sentimento de que o mundo parecia estranho e hostil (FERREIRA, 2005). A tentativa de reordená-lo, porém, significou invertê-lo ou colocá-lo às avessas, e daí o protesto e a violência popular. O fato de muitos policiais se solidarizarem com os manifestantes fez o autor perceber que:


[assim como] no carnaval, quando as interdições são temporariamente suspensas e as hierarquias subvertidas, os motins populares no Rio de Janeiro seguiram a mesma lógica que anima os foliões. Mas, naqueles dias de agosto, a cidade conheceu um carnaval diferente, um carnaval da tristeza. (FERREIRA, 2005, p, 83). (Grifo meu).

Se dirigindo a insurreição popular em Porto Alegre e as manifestações em São Paulo e Belo Horizonte, o autor mostra que nem a população de Porto Alegre, como o povo de São Paulo, se mantiveram indiferente diante do impacto da triste notícia. Logo pela manhã, quando as rádios e os jornais informavam as tragédias, milhares de pessoas saíram às ruas, principalmente os trabalhadores, para se certificarem do fato e expressarem suas dores e indignações (FERREIRA, 2005, p. 88-90). Já se encaminhando ao final, em Nordeste: emoção e desalento, o historiador não deixa passar em branco como as notícias do suicídio de Vargas foram recebidas pelos trabalhadores de algumas das capitais do Nordeste: Recife, Salvador, Fortaleza, Natal, Teresina e Aracaju.


Finalizando as discussões, em A ordem, Jorge Ferreira comenta justamente a respeito dos pedidos e clamores dos setores antigetulistas nos dois dias que se seguiram à morte de Vargas: “a ordem”. (FERREIRA, 2005, p. 94-95). Tendo em vista que a imprensa, os políticos e líderes da UDN, autoridades policiais e militares sacudidos com os motins, pediam pelo fim das manifestações de protesto. Porém, os pedidos de ordem, segundo o autor, não foram ouvidos naqueles dias (FERREIRA, 2005, p. 96).


Se teve algo que foi ouvido e transmitido nos dias do 24 de agosto de 1954 foi a carta de testamento de Getúlio Vargas, que finda dizendo:

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia, não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História. [1]

Nos anos de ensino básico e nos próprios livros didáticos o evento do suicídio de Vargas trabalhado de forma parca, nem tão pouco discutido de maneira larga. Reservam poucas e vagas linhas para o assunto – aliás, para qualquer assunto, pois a amplitude dos eventos (de curta e longa duração) nunca se visualizam em suas amplitudes em apenas um parágrafo de 20 linhas. Se pudéssemos complementar diria muitas entre tantas coisas, mas como o espaço não nos permite, concluo reclamando um lugar para discussão desse assunto nos espaços escolares; pois, ainda que na cultura ocidental o suicídio seja interpretado como sinal de fúria, que fere os preceitos do cristianismo, o suicídio de Vargas foi esperto. Ou seja, uma atitude que assumiu um significado bem diferente – um “suicídio altruísta” (Carlos Rodrigues apud Ferreira, 2005, p. 79).


Enfim, agora para finalizar, digo mais. Se começamos por uma música, nada mais justo que terminar com outra. Uma música que ficou marcada como sucesso da década de 50, uma marchinha de Paulinho Soledade e Fernando Lobo, celebre na voz de Dalva de Oliveira: “Ele que era o porta-estandarte. E que fazia alaúza e zum-zum. Hoje o bloco está mais triste sem ele. Está faltando um” [2].

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REFERÊNCIA

FERREIRA, Jorge. O carnaval da tristeza: os motins urbanos do 24 de agosto. In: O imaginário trabalhista, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005. p. 165-209.

[1] Carta-testamento (cópia datilografada) divulgada imediatamente após o suicídio de Vargas, em 24 de agosto de 1954. Fonte: CPDOC/FGV. [2] Apesar de os compositores Fernando Lobo e Paulo Soledade escreverem a canção Zum-zum, em homenagem ao Comandante Edu, da companhia aérea Panair do Brasil que morreu no acidente do voo Panair 099 no Morro do Chapéu no Rio Grande do Sul em 1950. A canção interpretada por Dalva de Oliveira no carnaval de 1951, sintetiza um pouco do que seria este carnaval triste de 24 de agosto de 1954.

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