Neruda e os (desen)cantos de uma ode funesta: a conquista espanhola nas Américas



Até 1950, ano de publicação de o Canto Geral, Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto – ou simplesmente, Pablo Neruda – viveu com intensidade momentos de tristezas, angústias, dores, paixões e confortos; todos esses eventos ou quase todos, foram traduzidos poeticamente em seus primeiros livros. Ainda que, o objetivo de nossa conversa parte de uma análise do capítulo Os conquistadores, presente no livro Canto Geral, com ênfase na imagem do conquistador e do nativo no processo de conquista da América – processo o qual foi apropriado na poética de Pablo Neruda. É fundamental, entendermos melhor a sintonia em que se insere a poesia política em o Canto Geral de Neruda, adentremos introdutoriamente em sua vida.

Tímido, provinciano e um devasso amante da poesia. Assim se resume as referências sobre a figura de Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, que nasceu em 12 de julho de 1904. Neftalí, depois de 1 (um) mês de vida perdeu sua mãe, vítima mortal da tuberculose. Criado pelo pai e madrasta (a quem demonstra carinho enorme em algumas obras) se inicia no vasto mundo da poesia ainda jovem – por volta de 11 (onze) anos de idade –, nesse momento de meninice se transforma num leitor assíduo de grandes escritores – entre eles, clássicos da literatura russa. Mais tarde, Eliécer Neftalí adotou como pseudônimo: Pablo Neruda. E, logo foi conhecido mundialmente após sua segunda obra: 20 poemas de amor e uma canção desesperada, publicada em 1924 – mas, há de destacar sua pobreza e as dificuldades financeiras as quais o atormentaram no período inicial de sua carreira.

Em 1927, Neruda inicia seu longo ofício de diplomata. Nomeado primeiramente como cônsul na Birmânia, exerce posteriormente a mesma função no Sri Lanka, Java, Singapura, Buenos Aires, Barcelona e em Madri. Nessas viagens, conheceu vários nomes prestigiados do mundo das letras e da cultura. Contudo, com a eclosão da Guerra Civil espanhola, em 1936, Neruda renuncia o cargo consular em Madri e escreve a obra Espanha no coração. Em 1945 é eleito senador do Chile; foi nesse ínterim que, comovido com o tratamento repressivo que era dado aos trabalhadores de minas, se pronunciou contra o governo, em inúmeros discursos criticou o presidente Gonzáles Videla, após perder seu foro passou a ser perseguido pelo governo, em seguida se exilou para Europa. Foi nesse contexto de repressão que, em 1950 Neruda publicou seu livro Canto Geral, nele sua poesia adota um viés social, político e comprometida com a ética.

Eliécer Neftalí morreu no dia 23 de setembro de 1973, aos 69 anos, em detrimento de um câncer de próstata. Mas, estacionemos no ano de 1950, mais especificamente em seu livro Canto Geral. Depois de uma rápida introdução, neste momento iniciemos uma análise mais vertical dessa obra. Porém, para efeito de avaliação façamos um recorte mais restrito. O capítulo tratado será: Os conquistadores – o canto lido e analisado, (canto III), possui um total de 25 poemas, todos destinados a abordar o período ou uma personalidade que marcou o início da conquista da América.

Sobre o Canto Geral, a doutora em teoria da literatura Lisana Teresinha Bertussi afirma,

Canto Geral é, sem dúvida o livro mais político de Neruda e o que mais refere regiões não só do Chile, da América Latina, como da Europa, Nova York e outras. Do elogio à natureza, às árvores, aos animais, aos pássaros, ao mar, chega à apologia dos heróis revolucionários libertadores. São XV livros dentro do livro maior, muito espaço para o poeta falar da terra, dos homens, da História da América Latina, fazendo paralelos com outras lutas emancipatórias universais, e realizar, ainda, uma espécie de meta-poesia, reafirmando reiterada e explicitamente sua opção pela arte engajada na luta social ( BERTUSSI 2010, p. 119).

Nesse mesmo sentido, o historiador Leandro Gomes Gentil e a doutora em letras Fábia dos Santos Marucci completam que o Canto Geral é:

Um conjunto de poesias que fala exclusivamente da América Latina, desde sua fase colonial até os anos 1950, aproximadamente. Um manifesto de denúncia da exploração e violência dos governos ao povo latino-americano. Para surpresa de Neruda, seu livro foi fonte de inspiração para o revolucionário Che Guevara (GENTIL & MARUCCI2013, p. 10).

Logo, podemos inferir que o Canto Geral é uma obra surreal, pois que toca em múltiplos sentimentos. Que vão desde os elogios à natureza ao âmbito histórico da América Latina, mas, que se reafirma sobre qualquer circunstância porque não é uma ode regionalista, por outro lado, são conjuntos de versos e ideias que estão presentes nas lutas emancipatórias por todo o mundo – e, no próprio viver humano.

Alguns escritores já se propuseram em poetizar a história de um país – de seu país –, é o caso de Fernando Pessoa em Messagem. Nesse livro, Pessoa, em certa medida, tenta rememorar o mítico passado de Portugal; também, traz a luz do enfraquecimento do país o “encoberto”, o “salvador”, o grandioso Sebastião I; com o objetivo claro: estabelecer um devir de farturas, riquezas e glórias. No caso de o Canto Geral, em Conquistadores, Neruda também evoca o passado, porém, o passado de vários países – dominados pelos espanhóis. Entretanto, esse passado não se delimita por glórias (diferentemente de Portugal, historiado por Pessoa), mas, sim, um passado de sangue e cinzas (NERUDA, p. 45).

Neruda inicia sua narrativa discorrendo sobre a chegada de Colombo: “Os carniceiros desolaram as ilhas,/ Guanahani foi a primeira/ nesta história de martírios” (NERUDA, p. 45). Nesse momento, podemos pontuar uma das primeiras intromissões funestas da narrativa: os carniceiros. Ou seja, a figura importuna dos europeus e suas crenças dogmáticas, simbólicas e intromissiva. Vide: “Só ficavam ossos/ rigidamente colocados/ em forma de cruz, para maior/ glória de Deus e dos homens” (NERUDA, p. 45), “A jóia de Colombo, Cuba fosfórica,/ recebeu o estandarte e os joelhos/ em sua areia molhada” (NERUDA, p. 45).

Posteriormente, o autor perpassa sobre a chegada ao mar do México em 1519, e, da instada sanguinária de Cortés: “Cortés não tem povo, é raio frio,/ coração morto na armadura[...]” (NERUDA, p. 47). Além de Cortés, outros conquistadores são apresentados como vilões do Novo Mundo, a exemplo de Balboa (NERUDA, p. 50-53): “Balboa, morte e garra/ levaste aos rincões da doce/ terra central, e entre os cães/ caçadores, o teu era a tua alma:/ leãozinho de beiço sangrento” (NERUDA, p. 50); Ximénez de Quesada (NERUDA, p. 54-55): “Já entraram na floresta:/ já roubaram, já mordem, já matam./ Oh Colômbia! Defende o véu/ de tua secreta selva rubra” (NERUDA, p.55); Valdivia (NERUDA, p. 64-66): “[...] Valdivia, o verdugo, atacou a fogo e morte./ Assim começou o sangue,/ o sangue de três séculos, o sangue oceano,/ o sangue atmosfera que cobriu a minha terra” (NERUDA, p.64); Entre tantos outros que surrupiaram as terras férteis e os Eldorados Americanos.

Numa balada de morte, corações assassinados, sangue e dores, onde “o grave rio viu os seus filhos morrerem” (NERUDA, p. 49), Neruda apetece a doce Guatemala, a qual “cada laje de tua mansão leva uma gota de sangue antigo devorado pelo focinho dos tigres” (NERUDA, p. 49). Já no VIII poema, “o bispo ergueu o braço,/ queimou os livros na praça/ em nome de seu Deus pequeno/ tornando em fumaça as velhas folhas/ gastas pelo tempo escuro” (NERUDA, p. 50). Em referência a Almagro, Pizarro e Luque: “No Panamá uniram-se os demônios [...] cada um escondia o punhal para as costa do associado” (NERUDA, p. 55). Em seus versos tristes, Neruda clama: “Só, nas soledades/ quero chorar como os rios, quero/ escurecer, dormir/ como tua antiga noite mineral” (NERUDA, p. 59), uma Elegia feita de versos sem esplendores – os quais todos foram roubados. Enfim, há inúmeras passagens que poderiam ser suscitadas e comentadas a fim de esclarecer a visão que Neruda constrói do conquistador, porém, vamos no deter na segunda parte: a imagem do nativo no processo de conquista.

Ao longo da leitura pude identificar que os nativos foram concebidos como meros coadjuvantes, num cenário em que o europeu era o ator principal das tramas. Que suas religiosidades e seus costumes eram substituídos de forma rápida: “Já ergueram o punhal/ sobre o oratório de Iraka,/ agora agarram o cacique,/ agora o amarram. “Entrega/ as jóias do deus antigo”/ as jóias que floresciam/ e brincavam com o orvalho/ da manhã da Colômbia.” (NERUDA, p. 55). E, morriam sem luta: “Dez mil peruanos caem/ debaixo de cruzes e espadas, o sangue/ molha as vestimentas de Atahualpa” (NERUDA, p. 57). “Diante dos olhos da Araucania,/ cortaram as cabeças dos caciques [...] o rei do bosque, incendiou/ a casa do dono do bosque/ cortou as mãos do cacique [...] empalou Toqui, assassinou a moça guerrilheira” (NERUDA, p. 65). Portanto, um nativo fraco – que é manipulado facilmente.

Porém, também pude notar que Neruda apresenta os nativos como edificadores de um passado mítico, que apesar dos percalços da conquista são capazes de promoverem brilhos de esperança para o futuro, dotados de um amanhecer pastoril (NERUDA, p. 65). Para Neruda, antes da invasão, os araucanos tinham elmos de plumagem luminosa, fiavam ouro para o sacerdote, eram pedras, árvores e raízes (NERUDA, p. 63); nesse sentido, os caciques são verdadeiros donos do bosque (NERUDA, p 65), da natureza. Logo, apesar da ira (XXV poema) “não só chegou o sangue mas o trigo. A luz veio apesar dos punhais” (NERUDA, p. 71). Nesse ultimo verso podemos inferir que, apesar de todos os horrores e distonias a América Latina também é vida.

Portanto, a poesia de Pablo Neruda é mais uma dentre as diversas formas de historiar a América Latina. A partir de seus pontos de vista: conquistador sanguinário; nativo incauto, celestial, memorial. Pode-se desvincular da ideia de um europeu salvador, no caso um bom pastor que trouxe o desenvolvimento e o progresso às Américas – um discurso ligado as tradições eurocêntricas do que foi a História das Américas.

Pois, ao contrário, na América Latina, desde a segunda metade do século XIV “a Morte é fina como ar” (NERUDA, p. 61), enquanto os nativos e as pessoas pobres sempre foram imóveis e sem armadura; foram os nomes que representaram as fracas estirpes, que sobraram do pó e da rapinagem histórica. São os homens e as mulheres que lutam e que sobrevivem as cóleras da fome, da terra e da ganância.


REFERÊNCIAS


NERUDA, Pablo. “Os conquistadores”. In: Canto Geral. RJ: Editora Record/Altaya: s/d. p. 45-71.

BERTUSSI, Lisana Teresinha. A poesia de Pablo Neruda: vanguarda, modernismo e regionalidade. ANTARES, n° 3 – Jan/jun 2010.

GENTIL, Leandro Gomes. MARUCCI, Fábia dos Santos. PABLO NERUDA: POESIA E POLÍTICA. Semioses, Rio de Janeiro. v. 7, n . 1, p. 7 - 16. jan./ jun. 2013.

42 visualizações

Todas as imagens de livros, filmes, séries, jogos,  ou qualquer criações visual autoral são de seus respectivos proprietários.

Copyright Máquina dos Tempos. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do maquinadostempos.com. Para reproduzir qualquer conteúdo, entre em contato conosco: maquinadostempos@hotmail.com

O Máquina dos Tempos traz para você as histórias que moldaram o mundo através dos tempos. Com compromisso ético e científico, pretendemos fazer a análise e o debate histórico algo divertido e de amplo alcance. Por meio de um canal livre e aberto, entre diversos historiadores e historiadoras do Brasil.

Receba nossas atualizações

Preencha o formulário com seu e-mail e nome e receba e seja notificado sempre que o Máquina dos Tempos lançar novos conteúdos.

SIGA-NOS

  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • Twitter - Círculo Branco
  • Spotify - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
Logo - Máquina dos Tempos
Logo - Máquina dos Tempos