Michelly Pereira S. Cordão: O jogo político da democracia

Atualizado: Jul 6

"Tudo se discute neste mundo, menos uma única coisa que não se discute: não se discute a democracia. A democracia está aí como se fosse uma espécie de santa no altar, de quem já não se espera milagres, mas que está aí como uma referência: a democracia", afirmou José Saramago em palestra no Fórum Social Mundial. O comentário do escritor português é muito oportuno para os tempos atuais e serve de epígrafe para uma obra ampla e estruturada sobre a redemocratização brasileira (1984-1985): O jogo político da democracia: a luta simbólica no “fim” da ditadura brasileira (Appris, 2008), de Michelly Pereira S. Cordão. A autora conversou com o Máquina dos Tempos a respeito desse trabalho e outros assuntos.


Professora na Unidade Acadêmica de História da Universidade Federal de Campina Grande (UFGC) desde 2019, Michelly Cordão ministra aulas para a graduação e pós-graduação, é doutora em Ciências Sociais (2015) e mestre em História (2010) pela UFGC, mesma instituição onde graduou-se em História e onde, atualmente, cursa o segundo doutorado, agora em História Social pelo Programa Dinter USP/UFCG.


Nessa entrevista, conversamos com a historiadora sobre seu livro, resultado de sua tese de doutorado, sobre as razões do ódio de parcela da sociedade brasileira à "democracia social" e sobre os limites enfrentados pela democracia em nosso país hoje. Esperamos que os leitores e leitoras aproveitem essa instigante entrevista!


"É assim que as ideologias agem, veiculando ideias que são de um grupo ou de uma classe, e fazendo parecer que elas são universais e neutras."
Michelly Pereira S. Cordão no Instituto Ricardo Brennand - Recife, Pernambuco (Foto: acervo pessoal).

Para iniciarmos nossa conversa podemos conhecer melhor quem é Michelly? Poderia nos falar sobre suas origens, familiares e culturais?


Nasci numa família de baixa condição socioeconômica, mas com um diferencial que foi significativo para minha formação enquanto sujeito e profissional: minha mãe era professora do ensino primário numa escola rural, localizada no sítio onde morávamos e onde ela mora até hoje com meu pai, que era agricultor. O sítio se chama Emas e se localiza no município de Itaporanga, Paraíba. Frequentei o grupo escolar municipal do nosso sítio até a terceira série do Ensino Fundamental, hoje quarto ano do EF I. Era a última série oferecida na escola, onde cheguei a ser aluna de minha mãe, Terezinha. Isso na primeira série. Aliás, foi ela quem me alfabetizou em casa. Aos quatros anos, sabia ler porque minha mãe me ensinava, assim como havia feito com meus outros onze irmãos. Fui a última a nascer dos doze filhos.


Onde você fez seus estudos? Por que História?


A partir da quarta série, hoje quinto ano do Ensino Fundamental, a contragosto passei a estudar na cidade. Era o ano de 1995. O fato de partilhar a mesma turma que uma prima, ajudou um pouco no processo de socialização, que foi um pouco difícil. Crianças e adolescentes das zonas rural e urbana partilhavam sociabilidades diferentes. Havia, também, preconceito dos estudantes citadinos com nós, que éramos do campo. Bom, na quinta série fiz um “teste de seleção” e passei a estudar no Colégio Diocesano da cidade, uma instituição privada, mas, pelo menos à época, com algum traço filantrópico. Isso porque minha mãe sempre conseguiu bolsas para os filhos lá estudarem. Vez ou outra, ela presenteava a então vice-diretora com queijos, doce de leite, ovos, canjica, etc. Foi nesse colégio que estudei até o 3º ano do Ensino Médio, que nos preparava para o vestibular. As provas, em 2002, ano que participei, eram chamadas de PSS (Processo Seletivo Seriado). Gostava muito da área de Ciências Humanas, em especial de Língua Portuguesa e História. O professor de História, Jucivan, foi bem importante para a opção que fiz pelo curso de graduação em História. Ressalto que essa possibilidade de escolher um curso universitário só se deu porque minhas irmãs e irmãos já haviam fixado moradia em Campina Grande. Quero dizer, com isso, que muitos jovens do sítio e mesmo da cidade onde eu morava não tiveram essa mesma oportunidade. Apesar das condições materiais humildes de meus pais, minha mãe nunca abriu mão da educação dos filhos. Bom, logo no primeiro semestre, em 2003, identifiquei-me com o curso e segui em frente. Sem essas condições materiais que, infelizmente, são privilégios de alguns, não teria sido possível fazer um curso universitário.


Em seu livro O jogo político da democracia: a luta simbólica no “fim” da ditadura brasileira (2018), resultado de sua tese de doutorado em ciências sociais, de que forma você problematiza o fim do regime civil-militar brasileiro (1964-1985)? Por que "fim" é colocado entre aspas?


Acabei optando por colocar entre aspas para chamar a atenção para o fato de que, embora a ditadura militar tenha acabado em 1985, isso não significou que houve ali uma ruptura com as estruturas sociais e políticas vigentes. Foi uma forma de sinalizar para as permanências de uma experiência política, cujo legado foi uma elevadíssima concentração de renda nas mãos de poucos e uma desoladora desigualdade socioeconômica que perdura atualmente.


Conforme lemos em seu livro, no momento da redemocratização do Estado brasileiro, nos anos 1980, houve uma disputa entre dois projetos democráticos: o liberal-conservador, imposto pelas elites, e o das esquerdas, atrelado aos trabalhadores. De que forma a vitória do projeto de redemocratização das elites, autoritário e conservador, afeta a vida democrática brasileira hoje?


A resposta a essa pergunta tem sofrido alterações a partir do resultado das eleições de 2018, uma vez que, em 2014, quando escrevi a tese que deu origem ao livro, não havia tantos rumores de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. No máximo, havia reflexos em seu governo das manifestações de 2013. Mas, não imaginávamos que aquilo tudo se desdobraria no golpe de 2016. Até porque a história é imprevisível. Então, se, por um lado, considero que o projeto de redemocratização que venceu as disputas nos anos de 1980 foi de natureza conservadora, até porque foi um projeto arquitetado já em 1974, com a “distensão lenta, segura e gradual”, do presidente-general Geisel, por outro, hoje, considerando o governo atual, temos a impressão de que aquele projeto tinha um fundo muito mais democrático. Para mim, a vitória de Lula em 2002 significou uma maior democratização social, no sentido de que, embora tenha dialogado com os setores do capital financeiro (os bancos, por exemplo), houve ali um projeto de ampliação dos direitos sociais e trabalhistas. Ou seja, mais pessoas passaram a ter acesso à educação, à saúde, à alimentação, etc. Direitos básicos de uma sociedade que se quer democrática.


No livro, você destaca que, apesar de o Brasil possuir instituições democráticas, o povo brasileiro, contudo, odeia a “democratização social”. De que forma você percebe isso?


Veja, isso está muito evidente desde 2018, principalmente, com as manifestações de ódio aos negros, pobres, LGBTQI+. As pessoas passaram a manifestar suas ideias extremistas, sem o menor constrangimento social. Isso se fortaleceu com a vitória de Bolsonaro, que representa tudo isso. Seus eleitores se sentem representados por alguém que odeia não só a democratização social, mas também as instituições democráticas. Estamos vendo isso nesses últimos meses com os ataques, por exemplo, ao STF.


Nos anos 1980, no momento da redemocratização, dois projetos democráticos disputavam a hegemonia. Hoje, que projetos políticos você enxerga no Brasil?


Existe um projeto de extrema-direita que está no poder; projetos fragmentados de direita, vide a representatividade midiática que Sérgio Moro vem ganhando, sobretudo desde sua saída do Ministério da Justiça. Ele está entrando na cena política nacional como possível candidato em 2022. Existem, também, projetos fragmentados da esquerda. Acredito que Lula continua sendo uma força política importante, no entanto, o fato de praticamente ser ocultado das páginas e das telas da grande imprensa, diminui sua representatividade. Por outro lado, vale ressaltar uma onda de movimentos sociais que vêm crescendo na esteira das pautas antirracistas, antissexistas, etc. Talvez esteja aí um caminho que aponte alguma esperança para nós nesses tempos tão sombrios.


Você também analisa como a mídia brasileira contribuiu para a construção do mito Tancredo Neves. No livro, você nos mostra como este, a partir das representações feitas pelos jornais da grande imprensa da época, passou a ser visto como o “mártir” da redemocratização. Para além do mito Tancredo Neves, que outros mitos foram construídos pela imprensa brasileira?


Na experiência histórica da política brasileira, houve muitos mitos, como Tiradentes, cujas representações, a depender do período, foram variadas. Há pesquisadores que se referem ao mito Lula, cuja representatividade, para os seus antagonistas, teria sido destruída com a condenação que recebeu em 2018 da justiça brasileira. No entanto, é importante destacar que a imprensa que construiu o mito Tancredo é a mesma que demonizou a figura de Lula desde suas primeiras aparições como líder sindicalista nos anos de 1970. Ou seja, estou afirmando que a grande imprensa construiu um mito de Lula, mas não no sentido positivo, como se deu com Tancredo. Pelo contrário, desde as eleições de 1989, a imprensa representou Lula orientada pela ideologia anticomunista. Amenizou um pouco em 2002, porque ele usou a política da conciliação. Mais recentemente, desde a operação lava jato, acho que a grande imprensa tem feito um esforço para colocar Moro na cena política nacional, construindo-o como uma espécie de “conciliador”, no sentido de que estaria no “centro” das posições extremadas, à direita e à esquerda. É bom que fiquemos de olho nisso, afinal de contas, é assim que as ideologias agem, veiculando ideias que são de um grupo ou de uma classe, e fazendo parecer que elas são universais e neutras. A imprensa age exatamente como mediadora dessas ideias.


Jair Bolsonaro, atual presidente, é considerado, por muitos de seus seguidores, um “mito”. De que forma você analisa isso? Podemos tecer comparações entre ele e o mito Tancredo Neves?

Bolsonaro é considerado um “mito” por seus apoiadores que, inclusive, usam essa palavra para se referir a ele. Ninguém se referia a Tancredo dessa forma. Essa comparação é bem difícil porque, apesar de ter defendido os interesses das elites, seguindo uma tradição na política brasileira, Tancredo era um liberal, um político de centro-direita. Bolsonaro é de extrema-direita. Um dos motivos pelos quais os bolsonaristas parecem chamar o presidente de “mito” é o fato de que, diferentemente de outros políticos, ele fala o que vem na cabeça; é um populista de extrema-direita que agrada muita gente que passou anos escondida e agora se sente a vontade para, também, falar e escrever “o que pensa” nas redes sociais e nas praças públicas usando como justificativa a prerrogativa da liberdade de expressão. Então, são situações muito distintas, de modo que fica difícil compará-los.


Para finalizar, uma pergunta bem simples (risos): hoje, quais os limites enfrentados pela democracia brasileira? Aqui, tal como você enfatiza em seu livro, entendemos que democracia não é algo pronto e acabado, e que deve ser alcançado pelas sociedades, mas, algo que é continuamente construído por elas.


A cada dia que vivemos desde a eleição de 2018, surgem novas demandas para aqueles que lutam por uma maior democratização social, isto é, por uma maior inclusão daqueles que estão fora das condições mínimas de existência na sociedade moderno-capitalista. Isso porque vários direitos sociais conquistados a partir de 1988, com a promulgação da Constituição pós-ditadura, e ampliados nos governos do PT, estão sendo desmontados diariamente. Então, estamos vivendo um momento muito difícil, em que grupos de milícias armados estão sendo formados para defender o presidente, à revelia das instituições democráticas. Entendo que vivemos um estado de exceção, com um presidente totalmente alheio às condições reais de existência da população mais vulnerável, especialmente neste contexto da pandemia provocada pela Covid-19.

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