• Leonardo Kröhling

Estátua de traficante de escravos é derrubada por manifestantes em Bristol, no Reino Unido

Atualizado: Out 7

Manifestações contra o racismo se espalharam pelo mundo e com elas questionamentos acerca de algumas figuras históricas...


Manifestantes antirracistas derrubaram uma estátua de Edward Colston (1636-1721) localizada na cidade de Bristol, no sul da Inglaterra, durante um ato no domingo (7) que reuniu 10 mil pessoas. O monumento homenageava um rico comerciante da região que durante muito tempo lucrou com o tráfico de africanos que eram vendidos como escravos nas colônias inglesas na América.


Estátua de Edward Colston, localizada no centro de Bristol.

A estátua ficava sobre um pedestal de pedra e se encontrava coberta por uma lona preta com o intuito de evitar o vandalismo durante os protestos. Antes de ser derrubada, os manifestantes jogaram ovos e diziam que queriam olhá-la de perto. Com o auxilio de uma corda, levaram-a ao chão em 30 segundos, colocaram uma placa escrita "Black Lives Matter" (Vidas Negras Importam) no pedestal e a jogaram no rio Avon, que corta a cidade. Inaugurada em 1895, a estátua de bronze já causava polêmica e era alvo de críticas há muito tempo, tendo até uma petição com mais de 11 mil assinaturas pedindo pela sua retirada.


Fotografia tirada por @willwantwrites (Twitter)

De acordo com a BBC, Edward Colston fez grande fortuna no século XVII e estima-se que a Royal African Company, companhia monopolista que ele era sócio, tenha transportado por volta de 84 mil africanos escravizados (entre homens, mulheres e crianças) oriundos da África ocidental. Estimativas também apontam que 19 mil morreram durante a árdua viagem pelo Oceano Atlântico. Além de escravos, Colston comercializava vinho, açúcar e pano.


Retrato de Edward Colston (1636-1721), feito por Jonathan Richardson.

Apesar de ser um comerciante de escravos, Colston era considerado um "cidadão de bem" na época. Ele utilizou parte do dinheiro vindo do comércio de escravos para a financiar a construção de uma escola, hospitais, igrejas e dois asilos distribuídos em sua cidade natal, Bristol, e em Londres, o que lhe rendeu apoio para conseguir um assento na Câmara dos Comuns do Parlamento Inglês. Por conta de seus feitos à comunidade, Edward Colston ganhou uma estátua em sua homenagem mais de 100 anos após sua morte, porém também há vários locais em Bristol que reverenciam o traficante como avenidas, ruas, escolas públicas e estradas. Nos últimos anos, campanhas tem sido feitas para apagar o nome de Colston de locais públicos da cidade.


Manifestantes jogam estátua do traficante de escravos Edward Colston no porto de Bristol, durante manifestação Black Lives Matter, em Bristol, na Inglaterra — Foto: Ben Birchall/PA via AP

No ano de 2018, a prefeita de Bristol, Cleo Lake pediu para que retirasse o retrato de Edward Colston que ficava em seu escritório na prefeitura da cidade. De ascendência afrocaribenha, a prefeita dizia que não suportava o "olhar" do traficante de escravos enquanto trabalhava. "Eu passo muito tempo aqui, quase todos os dias. Não vou ficar confortável compartilhando o escritório com o retrato de Colston.", afirmou ela.


Autoridades policiais da cidade agora buscam identificar os envolvidos na derrubada da estátua e o chefe de policia local, Andy Bennett, categorizou como um "ato claramente criminoso". Apesar disso, ele agradeceu aos ativistas que respeitaram as medidas contra o coronavírus exigidas pelas autoridades. "Gostaria de agradecer aos organizadores por seus esforços para incentivar os manifestantes a seguir as orientações do governo. Manter o público seguro era nossa maior prioridade e felizmente, não houve casos de desordem e nenhuma prisão foi feita.", declarou Bennett.


Logo após ser levada ao chão, manifestantes a chutaram e colocaram o joelho na estátua, em referência a abordagem policial que acabou na morte do estadunidense George Floyd em Minneapolis, no estado de Minnesota, Estados Unidos. Desde a morte de George Floyd no dia 25 de Maio, várias manifestações contra o racismo se espalharam ao mundo, chegando inclusive a países que durante muito tempo financiaram o tráfico de escravos pelo Atlântico.


Manifestantes derrubam estátua do traficante de escravos Edward Colston, em Bristol, na Inglaterra — Foto: Ben Birchall/PA via AP

Depois desse acontecimento, o debate sobre estátuas de figuras históricas duvidosas se espalharam pela Europa e pelo mundo. No dia 8 de Junho, manifestantes queimaram uma estátua do rei Leopoldo II da Bélgica, cuja administração colonial matou mais de 10 milhões de pessoas no Congo (antigo Zaire). No Brasil, o debate começou envolvendo a estátua do bandeirante Borba Gato em Santo Amaro, São Paulo, construída em 1962. No período colonial, os bandeirantes ficaram conhecidos por explorar o território colonial português e escravizar indígenas.


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