Eridu e a historicidade do conceito de cidade

De acordo com a etimologia, a palavra mito está relacionada à narrativa, ou seja, os mitos são histórias e relatos, sobretudo orais, que pretendem explicar questões sociais e/ou fenômenos naturais cujas causas e origens escapam do conhecimento e do controle dos seres humanos. Por serem produto de uma sociedade, os mitos trazem aspectos relacionados aos medos, anseios, angústias, costumes e geofísica da região em que dados povos habitam, entre outros diversos outros aspectos que envolvem e qualificam um povo.

Segundo as fontes e os registros mitológicos das antigas sociedades da região da Mesopotâmia, Eridu é o lugar da criação, a mais antiga cidade que simboliza o princípio da civilização, tal como os mesopotâmios a concebiam. Em uma dessas narrativas míticas, graças ao pensamento do deus babilônico Marduk, Eridu emergiu do Apsu, este sendo a representação das águas doces subterrâneas. Como a primeira edificação feita pelo deus foi a construção de um templo, Esagila, para sua morada e deleite, as cidades mesopotâmicas eram consideradas lugares sagrados.

Eridu

Para os povos da mesopotâmia, as características naturais da região eram tidas como manifestação do divino. O Apsu, como já citado, era a expressão do aspecto fertilizante das águas subterrâneas que, para esses povos, designavam uma grande importância, uma vez que eles habitavam uma região fortemente influenciada pelo clima desértico.

Já os templos, além de serem tidos como locais sagrados, desempenharam durante muito tempo o papel de principal instituição de poder sobre os povos mesopotâmicos. Eram eles, na figura do supremo sacerdote, que controlavam a produção dos agricultores e artesãos, que armazenavam e administravam as riquezas, que monopolizavam o saber, entre outras funções.

Uma tradição mitológica mais antiga atribui a uma divindade feminina, a deusa Nammu, o principio do mundo e a força criadora, que teria dado à luz aos grandes deuses, entre eles o deus Enki. Este aparece em outras fontes como o deus sábio, que conseguiu subjugar Apsu, o criador dos deuses, e controlar a cidade de Eridu. É também Enki quem possui o domínio dos Me, termo que segundo os sumérios comporta os elementos indispensáveis para o funcionamento do mundo: leis, instituições, símbolos, formas de comportamento social etc.

Os poucos registros encontrados em Eridu apontam para o fato de que esta cidade nunca foi um importante centro de poder político, econômico, estratégico e até mesmo religioso. Sua significação simbólica de mais antiga cidade, o lugar da criação, a transformou em um local de peregrinação.

A dispendiosa manutenção de seus templos ficava a cargo dos investimentos régios, cujos governos nem sempre tinham meios ou interesses pelo local, o que levou Eridu a passar por longos períodos de total abandono. Entretanto, alguns governantes utilizavam da estratégia de revitalização e reestruturação de locais de culto como uma forma de legitimar e fortalecer o seu poder. Esse foi o caso dos reis da Terceira Dinastia de Ur, onde um deles, Amar Sin, teve a ideia de construir um zigurate consagrado ao deus Enki.

Em meados da década de 1940, escavações feitas por uma equipe de arqueólogos iraquianos pôs à descoberta uma seqüência de dezoito templos, construídos e dispostos um sob o outro sobre o mesmo local. Ao longo desses dezoito templos, todos construídos com adobe, típico tijolo da região feito com argila e capim, foram encontrados pedaços de ossos, estatuetas de barro, contas de pedras semipreciosas, ferramentas, entre outros objetos. Além disso, os arqueólogos também descobriram parte de um lote residencial e um antigo cemitério, para o qual estimaram a presença de 800 a 1000 cadáveres.

Disposição dos 18 templos encontrados em Eridu

Essas escavações, promovidas pelo governo do Iraque, tinham como principais objetivos: recuperar a mais antiga cidade e principalmente fornecer provas de que Eridu não era somente o berço das antigas sociedades mesopotâmicas, mas de toda a civilização.


Referência

GWENDOLYN, Leick. “Eridu”. In Mesopotâmia a Invenção da Cidade. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Imago, 2003. p. 23-51.

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