Economia, Sociedade e Meio Ambiente no século XIX

Atualizado: Mar 1

O século XIX iniciou com suspiros incessantes e agitados no cenário político. Na Europa, a autoproclamação de Napoleão I formava o primeiro império francês, à frente do governo o imperador empurrava suas tropas sob qualquer um que desafiasse sua soberania e controle. No Brasil, as conjurações na Bahia, Minas e Rio de Janeiro reafirmava tensões que desde o início do século XVI já causavam incômodo entre a colônia e a metrópole, e, agora com a circulação de ideias iluministas e os exemplos da revolução francesa e da independência dos Estados Unidos, da rebelião escrava no Haiti, estimulavam-se possíveis levantes – como a Revolução Pernambucana em 1817.


Esses dois fatores estremeciam o então príncipe regente de Portugal, Dom João VI, e a rainha do reino, Maria I. Pois seja sua metrópole, seja os pilares da dominação Ultramar de Portugal, ambos corriam sérios riscos ao seu governo – uma ruptura estava eminente em quaisquer desses dois cenários.


De fato, a ruptura ocorreu e nesta balança o peso tencionou para o Brasil, após suspeitas e tensões entre o império da França e o reino de Portugal (devido ao Bloqueio continental), a corte portuguesa se transferiu para a colônia – que logo foi elevada para Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Anos depois, após a instalação de bancos, bibliotecas, teatros etc., a independência foi proclamada por Pedro I. Em termos históricos essa independência foi conquistada a um custo insignificante em termos de sangue. As classes abastadas em cada capitania haviam aceitado a legitimidade do imperador e sua constituição, retirando com isto, das massas oprimidas, a oportunidade para um levante.


O século XIX contextualizado urge, superficialmente, desse cenário. É este o século do Brasil Império. E foi justamente nos primeiros anos da década de 1820, o momento decisivo no processo de construção do Brasil como Estado independente e unificado, e a Natureza tem papel fundamental nesta ocasião (ou melhor, neste século), algo que veremos mais à frente.

A partir dos textos de José Augusto Pádua, intitulado por “Natureza e sociedade no Brasil monárquico”, e de algumas discussões levantadas por Warren Dean, em seu livro “A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira”, acredito que poderemos fazer uma boa análise nos termos econômicos e sociais, interligando-os aos fatores ambientais, no século XIX. Com o intuito final de realizarmos um chamamento à História Ambiental.

Enfim, indo às páginas e reflexões desses autores podemos perceber algo que perpassa todas as discussões de ambos os dois historiadores: os viajantes. Seus nomes, feitos, realizações, suas obras cientificas e suas narrativas sobre os vários “Brasis” nos legaram uma rica e farta possibilidade em se estudar o passado através de seus relatos e relatórios.


O brasilianista Warren Dean, cita que o estabelecimento da corte portuguesa tornava, por fim, acessível aos cientistas europeus o até então proibido Brasil. José Augusto Pádua complementa afirmando que a atração pela natureza e pelo exotismo, que trouxe ao Brasil um número significativo de naturalistas viajantes, assim como de homens de negócios interessados na exploração de suas riquezas – tal como o viajante francês Louis-François de Tollenare –, veio sendo incorporada pela elite local como importante ativo cultural e instrumento de valorização do país na cena internacional.


Afora os viajantes e a circulação de ideias – entre elas as iluministas– que estes esboçavam no século XIX aqui no Brasil, é possível pontuar que no campo econômico a corte portuguesa, desde o início impassível, concentrava suas esperanças nos dotes naturais do Brasil, que lhe pareciam ilimitados.


Por exemplo, foi após a vinda da corte que o Pau-brasil ficou exclusivo a sua exploração e seu comercio monopólio do Estado. Além disso temos a ascensão do cultivo do café, tal como o século XVIII havia sido para o Brasil o século do ouro, o século XIX se tornou o século do café. Essa nova cultura – o café – tornou nas primeiras décadas do império, a base da economia exportadora do Rio de Janeiro. Dean afirma que para a Mata Atlântica, entretanto, a introdução dessa planta exótica significou uma ameaça mais intensa que qualquer outro evento dos trezentos anos de colonização portuguesa.

No âmbito social ainda é possível apontar também que, no momento histórico da formação e consolidação do Estado independente no Brasil, segundo Pádua, a cultura europeia vivia uma dinâmica de valorização da natureza como imagem e como tema na arte e no pensamento. Para maior aprofundamento podemos citar o livro de Keith Thomas.


Com relação a isso, ainda que Warren Dean comente em seu livro que, o sentimento nacionalista pela natureza ainda estava mais próximo ao século XX do que no decurso do século XIX, pois a moda do naturalismo romântico da Inglaterra da época não encontrava nenhum eco no Brasil. Podemos contrapor argumentando que, lógico, aqui não havia ninguém em comparação a um Henry David Thoreau que em seu eremítico contato com a natureza falava: “pôr fogo nas cercas e deixar de pé as florestas” ou dedicava páginas e mais páginas para a escrita de Walden sobre seu cotidiano junto as matas. Ou seja, não havia um “Thoreau brasileiro”, que defendia radicalmente a vida no campo e a natureza, mas sem dúvidas ao ler Pádua percebemos que havia pensadores e escritores que conjecturavam tal espirito conservacionista com relação à natureza brasileira.


A visão da natureza como espaço de devastação, nesse sentido, fermentou a reflexão crítica sobre o escravismo, o atraso tecnológico, a concentração fundiária e muitos outros temas perturbadores para a autoimagem idealiza da ordem imperial.


Enfim, poderíamos concluir dizendo que a seja pelo viés do naturalismo cientifico ou pela emergência da sensibilidade romântica, a natureza tornou-se objeto de um novo interesse e de novas sensibilidade no século XIX. Tal conjuntura influenciou profundamente o ambiente social e cultura no Brasil monárquico.


Pádua, por exemplo, chega a afirmar que o uso cultural da “natureza” tornou-se generalizado nas artes visuais, na literatura, na simbologia social e política, na caracterização econômica e na propaganda diplomática.


Em suma, compactuo da ideia de diversos autores e autoras já consolidadas no fazer histórico ambiental ou ecológico, principalmente no diz que as relações entre sociedade e natureza, entendido em sentido amplo, pode conduzir os historiadores ao centro de algumas das dinâmicas ambientais, socioeconômicas, políticas e culturais que marcam a histórica, nesse caso o Brasil do século XIX, com todos os seus dilemas, ambiguidades, contradições e realizações.


E para essa empreitada, já diz Regina Horta Duarte, o conhecimento histórico deve buscar comunicação com as mais diversas áreas, incluindo a geografia, a geologia, a botânica, a zoologia, a paleontologia, a agronomia, a ecologia, a química, a história da ciência e tantas outras quantas se tornarem necessárias.


Finalizo acrescentando apenas que, a história do século XIX no Brasil – em sua plenitude – é também um veio de historicidade que revela a forma como os homens derrubaram matas e florestas e plantaram o café, a cana, colheram seus frutos ou refrescaram-se às sombras de grandes árvores. Essas histórias mais do que nunca devem ser trazidas ao debate historiográfico.


REFERÊNCIAS

DUARTE, Regina Horta. História & Natureza. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. 1. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.

PÁDUA, José Augusto. Natureza e sociedade no Brasil monárquico. in O Brasil imperial / Organizacao Keila Grinberg, Ricardo Salles. - Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 2009. 2v.


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