[Dicionário histórico]: H de História

Atualizado: Jun 24

Tentar definir algo é um grande desafio para nós, historiadores. Pois, mais do que qualquer outro profissional, sabemos que tudo está em constante mudança. Por isso, é impossível fornecer uma definição fechada e rígida para qualquer coisa.


No entanto, a consciência disso não isenta o historiador de buscar respostas para a pergunta “o que é história?”. Afinal, é dever de todo bom profissional saber do que trata o seu próprio ofício. É por isso que, para o primeiro episódio de nosso quadro Dicionário Histórico, nós, do Máquina dos Tempos, nos lançamos nessa ambiciosa missão de tentar definir o que é História. Bem, vamos lá!


“A História é a ciência que estuda os homens no tempo”, disse o historiador Marc Bloch, na primeira metade do século XX, em sua Apologia da História. Até hoje, essa definição é bastante influente no campo da história – tanto é que se tornou uma espécie de jargão repetido por muitos historiadores. Mas, o que ela significa?


Primeiramente, temos que essa definição afirma que a História é uma ciência. A ciência, de modo geral, é uma forma de explicar o mundo – a realidade que nos cerca. Ela não é a única forma que temos para explicá-lo. Outra forma bastante utilizada pelas sociedades, por exemplo, é a religião. Nesse sentido, o que diferencia a ciência dessa e de outras formas de explicação de mundo é que ela, a ciência, faz isso por meio de teorias e métodos. Além disso, as explicações formuladas pela ciência possuem caráter demonstrativo. Isso significa dizer que, quando uma explicação é formulada por um cientista, ela precisa, de alguma forma, ser demonstrada. O que não é o caso da religião, por exemplo.



Pois bem, a história é uma ciência. Em seguida, temos que ela é a ciência “que estuda os homens” – homens no sentido de humanidade. Ora, mas estudar o “homem” não é particularidade da ciência histórica. Outras ciências também o fazem. Aliás, é isso o que todas as ciências humanas fazem, não é verdade? – estudam os homens... Sendo assim, qual seria a particularidade da história? O que a diferencia das demais ciências do homem? Pois bem, a grande singularidade da ciência histórica é o tempo: “a história é a ciência que estuda os homens no tempo”. Dessa forma, nenhum historiador que se preze pode fugir da dimensão temporal. É tarefa do historiador tentar explicar os eventos e processos humanos em seu próprio tempo.


E aqui surge outra questão sobre a história: como os historiadores fazem para demonstrar suas explicações, uma vez que o tempo não pode ser apreendido e manipulado? Resposta: nós, historiadores, quando formulamos explicações para as sociedades humanas, fazemos isso respaldados pelas fontes – os vestígios deixados pelas sociedades. Quando os historiadores elaboram afirmações, hipóteses e teses sobre os fenômenos humanos, eles devem demonstrá-las por meio de fontes.


A prática de investigação historiográfica é antiga. Ela remonta aos gregos antigos. Foram eles que, pela primeira vez, procuraram explicações demonstrativas para os acontecimentos de seu tempo. É por isso que muitos consideram o grego Heródoto (século V a.C) o “pai da história”. Contudo, a história somente se firmou como ciência em meados do século XIX. A isso devemos a atuação do historiador alemão Leopold von Ranke, e dos seus seguidores franceses, os historiadores metódicos – também chamados de “positivistas”.


Toda ciência, tal como a concebemos na atualidade, possui caráter investigativo. Com a história não é diferente. Aliás, em seu caso essa característica é duplamente reforçada, uma vez que a palavra história significa justamente “investigação”. Nesse sentido, aqui vale a pena destacar que uma produção que simplesmente narre, relate ou registre fatos, sem caráter investigativo, não se trata de uma obra de história.


O historiador, quando recupera fatos e eventos, o faz com o objetivo de produzir explicações sobre algo. Fatos e eventos, em si, não são o fim do ofício do historiador – mas sim um de seus instrumentos. É por meio das análises que deles podem ser feitas que os profissionais da história elaboram explicações sobre algo que os inquietam – que são, de alguma forma, questões e problemas colocados por suas sociedades.


A definição de história que trazemos aqui, já falamos, é a de Marc Bloch – fundador da Escola dos Annales (1929). Uma das grandes contribuições trazidas por ela é a afirmação de que a história é uma ciência. Essa definição, embora seja bastante influente na atualidade, não é, contudo, a única existente no campo da história.


Neste, há historiadores, a exemplo de Hayden White e Paul Veyne, que questionam ou até mesmo negam o caráter científico – investigativo – da história. Para White, por exemplo, a história é um gênero literário. Sem menosprezarmos a função social da literatura, acreditamos, contudo, que esses historiadores hiper dimensionam o caráter narrativo da história, e ignoram a dimensão teórica e metodológica, à qual os historiadores não podem fugir.


Para nós, a história possui duas dimensões: a da pesquisa, que envolve teorias e métodos, e a da narrativa (escrita), que é a linguagem por meio da qual ela se apresenta – toda ciência possui a sua. Defendemos, também, que não devemos subestimar ou superestimar uma dessas dimensões em detrimento da outra.


Para finalizar essa – sucinta – definição de história, falta-nos apenas falar da função social dessa disciplina. Vez ou outra os historiadores são questionados com perguntas do tipo: “para que serve a história?”. Para muitos, ela não serve para nada. Entretanto, compreender os eventos e os processos que se deram ao longo do tempo, e que, de alguma forma, nos afetam, é fundamental para nos compreendermos – enquanto sujeitos históricos e sociais – e para melhor compreendermos os limites e as possibilidades da sociedade em que vivemos. Compreendermos por que ela é de um jeito – e não de outro. Além disso, estudar história nos ajuda a entender que os fatos sociais não são obra da natureza, mas, da atuação humana – e que por isso também podem ser transformados!


Pesquisa e redação: Karol Miranda


Referências


BARROS, José D’Assunção Barros. Teoria da História. Vol. I Princípios e Conceitos Fundamentais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.


Verbete “História”. In SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2005.


BLOCH, Marc. Apologia da história, ou, O ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BORGES, Vavy Pacheco. O que é história. São Paulo: Brasilense, 1993.

História: o ofício do historiador (Entrevista dada pela historiadora Maria Helena Capelato). Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=deVwuwS5Gqg >. Acesso em 23/04/2020.

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