• Thayane Gomes

A Perspectiva das lutas raciais e feminista na série Coisa Mais Linda

Coisa Mais Linda é uma série de televisão brasileira exibida pelo serviço de streaming Netflix, criada por Giuliano Cedroni e Heather Roth, dirigida por Caíto Ortiz, Hugo Prada e Julia Resende, foi lançada em março de 2019, a produção conta com elenco de Maria Casadevall, Pathy Dejesus, Fernanda Vasconcellos, Leandro Lima entre outro rostos já conhecidos da TV brasileira. Ambientada no fim da década de 50, a série nos mostra a ascensão da Bossa Nova e a luta das mulheres no país.

Reprodução Netflix

Como fundo o Rio de Janeiro, da década de 50, a série conta a história de quatro mulheres, a protagonista Malu (Maria Casadevall) após descobrir que o marido a abandonou levando todo seu dinheiro decide fazer do restaurante deles um clube de música e com ajuda de Adélia (Pathy Dejesus) criam o Coisa Mais Linda. Lígia (Fernanda Vasconcellos) amiga de infância de Malu, tenta convencer o seu marido a apoia-la a seguir a carreira de cantora, Thereza (Mel Lisboa) cunhada de Lígia, é uma feminista independente que luta para conquista espaço para as mulheres na revista em que trabalha.

Reprodução Netflix

Em pleno fim dos anos 1950 e início de 1960, no Brasil, uma mulher independente e confiante não era vista com bons olhos pela sociedade, a nossa protagonista enfrenta diversos problemas para abrir seu clube, que pela lei deveria conter a assinatura do marido, o que era cotidiano no nosso país - somente na constituição de 1988 a mulher passa a ter direito a possuir propriedades, a liberdade e independência.


A série mostra, também, a ascensão do movimento feminista na inicio da década de 60, mas essa luta não incluía as mulheres negras, é isto que Adélia nos mostra, enquanto mulheres brancas como Malu queriam independência financeira e sair para trabalha, ela já sustentava sua filha e sua irmã desde a morte da mãe dela e além disso precisou lidar com ofensas e injurias racistas a vida toda, dessa forma vemos o feminismo branco e elitista presentado pela luta da Malu, Lígia e Thereza em contra ponto com o feminismo negro visto na luta da Adélia e mais a frente com sua irmã.


*ALERTA DE SPOILER DA 1° TEMPORADA!*

Representação Netflix

A Lígia é outra personagem com uma história marcante, ao largar seu sonho de ser uma cantora famosa e casar-se com Augusto Soares (Gustavo Vaz) começa a sofrer opressão do marido e da sogra (Eleonora Soares - interpretada por Esther Góes) que a pressionam para que se comporte como uma dama e uma moça de família, Augusto sempre estava envolvido na politica do Rio de Janeiro tinha pretensão a ser candidato a vereador da cidade por isso controlava sua esposa a proibindo de fazer o que ela mais gostava cantar pois essa seria profissão de "Mulheres Vulgares", Lígia ao se impor contra o marido passa a sofre de violência física e psicológica, o conflito entre o casal aumenta ao longo da temporada levando a separação, Lígia descobre estar grávida de Augusto, traumatizada pelos abusos sofridos no casamento decide abortar com ajuda da Malu consegue, ao descobrir Augusto se enfurece e atira em Lígia que é levada as pressas pro hospital, este ato dele era visto na época como honroso, pois um homem deveria manter sua dignidade.


Os casos de violência doméstica no brasil eram julgados em juizados especiais criminais, responsáveis pelo julgamento de crimes considerados de menor potencial ofensivo, e isso levava ao massivo arquivamento de processos, isto só muda de fato com a Lei Maria da Penha de 2006, que estabelece que todo o caso de violência doméstica e intrafamiliar é crime, deve ser apurado através de inquérito policial e ser remetido ao Ministério Público.

Rpresentação Netflix

A Thereza Soares é a única conscientemente feminista e que se indigna com o machismo explicito, a personagem morou na França por muito tempo com seu marido, isto influência muito suas ideias sobre liberdade e feminismo levando-a a confrontar seus redatores da revista feminina Ângela sobre o que realmente as mulheres queriam ler, todos os redatores são homens e alegam “as mulheres não querem ler sobre política. Querem dicas de que roupa usar no primeiro encontro, e receitas de comida.” Além disso a série aborda o casamento aberto da Thereza com o Nelson Soares (Alexandre Cioletti) mostrando sua bixesualidade e liberdade sexual ao se envolver com uma colega de redação Helô (Thaila Ayla), que nem preciso dizer era totalmente mal vista na época, e de fato a ideia da bissexualidade é muito difícil de digerir para muitas pessoas até hoje.


A série também foca na parte musical com uma trilha sonora belíssima contando com grandes nomes da música brasileira como Elis Regina, João Gilberto, Nara Leão entre outros, porém não foi contado sobre a origem do samba e do jazz — ambos estilos musicais da cultura negra, os quais serviram de inspiração para a Bossa Nova. E, tratando-se do samba, criado no Brasil, é importante ressaltar que ele foi repudiado no país que o criminalizou por ser de matriz africana, sendo popularizado somente com Noel Rosa, branco e de classe média.


Coisa Mais Linda veio para dar protagonismo as mulheres discutir o feminismo, mostrar a importância da sororidade e permite que dialoguemos com o péssimo momento que vivemos hoje, em pleno 2020 deveríamos estar enxergando a série como um passado distante. Mas estamos vendo como algo atual e que passou do tempo para dar um basta.

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