• Pablo Bráulio

1º de abril: ensinar a ditadura entre verdades e mentiras

Atualizado: Mai 17

Apesar de toda a repercussão da epidemia de covid-19 nas últimas semanas, o dia 31 de março não passou sem menção de algumas de nossas autoridades políticas. O presidente da República, Jair Bolsonaro, falou em “grande dia da liberdade’. O vice-presidente, Hamilton Mourão, exaltou a data no Twitter.

Mensagem do vice-presidente no Twitter em 31 de março de 2020

Ambos se referiam ao golpe de Estado que instaurou uma ditadura no Brasil entre 1964 e 1985. O evento tem sido celebrado por figuras do alto escalão do governo federal desde o ano passado, quando uma sequência de iniciativas desencadearam um amplo debate público.


No dia 25 de março de 2019, o presidente da República determinou ao ministério da Defesa que fossem feitas comemorações no dia 31 de março. Dois dias após esse anúncio, o chanceler Ernesto Araújo negou que tivesse havido um golpe no Brasil em 1964. No dia 31, o Palácio do Planalto divulgou um vídeo institucional defendendo o golpe. E quatro dias depois o então ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, informou que realizaria mudanças nos livros didáticos para que o golpe de 64 e a ditadura fossem ensinadas de outra maneira.


Essa sequência de manifestações públicas foi feita com a intenção de negar fatos consumados e, ao mesmo tempo, revisar o modo como a história desses fatos é contada. Diante disso, algumas questões podem inquietar os professores e professoras de História. Certamente, a maioria não se pergunta se houve ou não um golpe, se foi ou não uma ditadura ou se ocorreram torturas durante o regime ditatorial. Há elementos e evidências suficientes para não ter esse tipo de dúvida. As perguntas são outras.


O que está por trás das manifestações dessas autoridades políticas? É possível mudar a história ensinada apenas com uma canetada de acordo com a vontade de quem está no poder? Como chegamos até aqui? Por que negar?

Rio de Janeiro, 1968 (Foto: Arquivo Nacional/Correio da Manhã)

Pra que negar?

Não é “negando as aparências, disfarçando as evidências” (já dizia a canção popular!) que vamos resolver os dilemas do nosso passado. Mas também não vamos negar que o conhecimento histórico está sempre sujeito a revisões. Se honestas e bem fundamentadas, as revisões são muito importantes para a construção desse conhecimento. Mas como um professor ou professora de História deve se comportar no meio do fogo cruzado das várias versões sobre o golpe de 64 e a ditadura que se instaurou no Brasil ao longo dos 21 anos seguintes?


A partir deste texto introdutório, preparamos uma série de artigos sobre o ensino da ditadura no Brasil. Conectando o ensino com a produção historiográfica e com o debate público em torno do tema, esperamos oferecer um apanhado das principais questões em jogo. Esperamos suscitar uma boa reflexão sobre esse período histórico, atendendo especialmente a demandas de professoras e professores de História que atuam na Educação Básica.


Estes são os sete artigos que compõem a série sobre ensino de história da ditadura no Brasil:


1ª parte – 1º de abril: ensinar a ditadura entre verdades e mentiras (atual)

2ª parte – Revisionismo: que papo é esse? (próximo) 3ª parte – Experiências autoritárias e repressivas recentes: memórias e debates 4ª parte – Golpe & revolução & contrarrevolução & contragolpe 5ª parte – Aniversários do golpe e as reações ao negacionismo 6ª parte – História da ditadura na sala de aula: o que fazer? 7ª parte – O que ler, ver e ouvir sobre a ditadura civil-militar no Brasil

197 visualizações

Todas as imagens de livros, filmes, séries, jogos,  ou qualquer criações visual autoral são de seus respectivos proprietários.

Copyright Máquina dos Tempos. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do maquinadostempos.com. Para reproduzir qualquer conteúdo, entre em contato conosco: maquinadostempos@hotmail.com

O Máquina dos Tempos traz para você as histórias que moldaram o mundo através dos tempos. Com compromisso ético e científico, pretendemos fazer a análise e o debate histórico algo divertido e de amplo alcance. Por meio de um canal livre e aberto, entre diversos historiadores e historiadoras do Brasil.

Receba nossas atualizações

Preencha o formulário com seu e-mail e nome e receba e seja notificado sempre que o Máquina dos Tempos lançar novos conteúdos.

SIGA-NOS

  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • Twitter - Círculo Branco
  • Spotify - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
Logo - Máquina dos Tempos
Logo - Máquina dos Tempos